Um novo projeto contra o tsumani na economia, reflete Thales Guaracy

Crise reforça pressão por aumento dos gastos permanentes do governo
Aprovação de Bolsonaro cai 4 pontos depois da demissão de Moro, diz XP

Mundo deve viver recessão violenta

Discute modelo a ser adotado

 

O ministro Paulo Guedes (Economia) e o presidente Jair Bolsonaro durante lançamento do programa de incentiva a empregos para jovens, Verde Amarelo


Um empresário do ramo de transporte rodoviário, que tem como clientes fabricantes de alimentos e produtos de higiene e limpeza, afirmou a este jornalista que, mesmo estando num mercado que não parou, o volume de negócios caiu 40% desde o início da pandemia.

Um executivo do mercado financeiro, que lida principalmente com reestruturação de empresas, afirma que estamos na primeira fase de um “tsunami econômico”“A água no momento está recuando, depois virá a onda”, compara.

A onda, segundo ele, virá na forma de uma recessão violenta, ainda não captada nos balanços das empresas, que estão por serem publicados nos próximos meses.

O que se desenha para o futuro próximo, portanto, é uma recessão profunda. Não colabora o clima de instabilidade política, criado não somente pelo confronto do presidente Jair Bolsonaro com seus desafetos, como pela divisão dentro do próprio governo.

Para evitar aumento do clima de instabilidade, o presidente disse que o ministro da Economia, Paulo Guedes, continua no comando, depois da iniciativa tomada pelo ministro chefe da Casa Civil, Braga Netto, de anunciar um plano de expansão dos investimentos públicos batizado de pró-Brasil. Foi o sinal para o entendimento de que há uma corrente dentro do governo que já não acredita no projeto liberal de Guedes, nas circunstâncias atuais.

Com o apoio público do presidente, Guedes retomou o controle da política econômica e reafirmou que nada vai mudar. Acredita que com as reformas virão “bilhões de dólares” de investimento estrangeiro. Porém, a frase soa mais como uma esperança do que como um plano, no momento em que o mundo inteiro luta com os mesmos problemas domesticamente e ninguém parece estar com caixa sobrando para aventuras no Brasil.

No mundo inteiro, governos buscam saídas de financiamento para a crise. A primeira atitude da maioria dos governos, incluindo o brasileiro, foi fazer o pagamento de um auxílio emergencial aos que ficaram sem trabalho e renda. Porém, esses recursos são esgotáveis. E ninguém acredita que esse imenso esforço coletivo virá da iniciativa privada. Dado o tamanho da encrenca, a solução pede a intervenção do Estado e a união coletiva.

No chamado grupo do Euro, os países europeus que em sua maioria já empreenderam um lockdown rigoroso e pensam na volta ao trabalho, estuda-se a criação de ‘coronabonds’, títulos que viriam a recompor o caixa do Estado.

Nos Estados Unidos, onde os economistas projetam uma queda de pelo menos 30% na atividade econômica no segundo semestre, o Estado também dificilmente escapará de ter que socorrer a iniciativa privada, o que significa aumentar o endividamento público.

Não seria a primeira vez. Depois da crise de 2008, decorrente do antes decantado liberalismo americano, quem salvou bancos e a economia em geral foi o Estado, no governo de Barack Obama. O preço disso foi o crescimento da dívida pública americana, que foi ainda maior que o da própria economia, superando em valor o PIB.

A economia americana é pujante, mas baseia-se sobretudo no consumo, o que mais caiu com a pandemia. Consertar esse estrago custará mais caro que em 2008 e, desta vez, a conta recairá sobre um Estado já muito mais endividado.

Isso significa que, queira Guedes ou não, será muito mais difícil sustentar um modelo ultra-liberal, dependente de investimentos privados ou externos, e que joga recursos do Estado para os bancos privados financiarem a economia, como ele pretende.

O modelo apresentado por Braga Netto, embora ainda um rascunho, aponta mais para o velho modelo desenvolvimentista para o qual sempre tendem os militares, por seu espírito nacionalista e construtivo. Um tipo de mentalidade que, no passado, já foi responsável por grandes acertos –e também grandes erros.

O projeto desenvolvimentista do regime militar teve seu tempo de ouro, graças à facilidade de empréstimos externos. Gerou o “milagre econômico” com base numa forte atuação do Estado na economia. Com empréstimos externos, o governo promoveu grandes obras de infraestrutura, como rodovias e hidrelétricas, e criou uma imensa rede de estatais para tocar seus programas adiante.

No longo prazo, o “milagre” virou do avesso, quando chegou a hora de pagar a dívida externa. A economia caiu na dependência das empresas estatais, que se transformaram em mamutes em tamanho e ineficiência.

Pior, a iniciativa privada brasileira se acostumou a viver à sombra do Estado, eliminando o risco e dependendo de negociatas que plantaram fundo no país a cultura da corrupção.

Da democratização para cá, o Brasil entrou num rota que buscou um equilíbrio maior entre o investimento público e o privado, com um grande programa de privatizações iniciado no governo Fernando Henrique, que Guedes gostaria de radicalizar. Ao mesmo tempo, criou programas assistenciais em grande escala, que nem o guedismo convenceu Bolsonaro a abandonar.

Não se pode dizer que um novo rumo econômico como o apontado com o Pró-Brasil seria como ver um velho filme. Os tempos são outros. Consideradas as lições do passado, um novo modelo desenvolvimentista, voltado para a reconstrução nacional após a pandemia, pode até ser a única saída no atual momento.

Em si, nenhum modelo é ruim –seu sucesso sempre depende de como é administrado e, depois, na boa resolução sobre quem paga a conta. É preciso, também, de respaldo da sociedade.

O presidente Bolsonaro ganhou apoio do empresariado pela promessa de que o governo não iria recobrar a saúde financeira do Estado com impostos e taxações. Já na campanha eleitoral, colocou Guedes, o ultra-liberal, como fiador desse acordo. Ocorre que o investimento privado, mesmo assim, não veio na escala esperada –e agora, com a pandemia, está a anos-luz de acontecer.

A retomada do investimento pelo Estado neste momento pode trazer junto as empresas privadas. Será preciso durante esse tempo resolver um segundo desafio, que é a criação no Brasil de uma iniciativa privada de verdade, que justifique esse nome, correndo riscos, e possa de fato ser a cabeça de ponte do progresso econômico no futuro pós-pandêmico, quando o Estado tirar de cena sua ponte de socorro.

É preciso ainda entender qual será o lastro desses investimentos públicos. Sem dinheiro fácil no exterior, seja emprestado, seja como investimento, o plano terá sobretudo de estabelecer quem vai pagar a conta. E os empresários que apoiaram Bolsonaro terão de reconhecer que será preciso entregar os anéis, se não quiserem perder também os dedos.

Fonte: Poder360

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Sindicalize-se
Falar pelo WhatsApp
Enviar via WhatsApp