The Economist: As reuniões virtuais chegaram para ficar

Sete de cada dez indústrias não conseguem comprar insumos para produção
Na 2ª onda de covid, inadimplência, renda em queda e inflação ameaçam a economia

Gostem os funcionários ou não, certos aspectos do trabalho remoto vão se perpetuar mesmo após o fim da pandemia

The Economist, O Estado de S. Paulo

12 de abril de 2021 | 05h00

Georgina não tem pressa para voltar ao escritório. Aos 37 anos, ela atua em Genebra, na Suíça, e trabalhou de casa na maior parte do ano passado. Isso a livrou dos deslocamentos entre sua casa e o escritório, permitiu-lhe usar calças de moletom e evitar constrangedoras conversas a respeito de sua gravidez. Agora, ela está em licença-maternidade, mas seus colegas estão gradualmente voltando ao escritório. As reuniões ainda são realizadas por Zoom; os colegas dela se conectam individualmente a partir de suas mesas para aqueles que trabalham de casa não se sentirem excluídos. Mas Georgina se preocupa com a possibilidade de, conforme as restrições forem aliviadas, as pessoas retomarem hábitos pré-pandemia, e o trabalho realizado em casa se tornar outra vez a exceção.

Plataformas de videoconferência como Microsoft Teams e Zoom (agora tão onipresentes que viraram expressões comuns) tornaram o trabalho remoto possível enquanto a covid-19 se espalhava e os países entravam em lockdown. Os funcionários precisavam de permissão para trabalhar de casa; agora, precisam ser liberados para ir ao escritório. Todo tipo de serviço que era oferecido presencialmente – de aulas de ioga a consultas médicas – passou a ser realizado online. O número diário de participantes de reuniões pelo Zoom saltou de aproximadamente 10 milhões, em dezembro de 2019, para mais de 300 milhões, quatro meses depois.

Essa mudança fez bem para o planeta. Reuniões por videoconferência consomem menos de um décimo da energia necessária para realização de reuniões presenciais, quando deslocamentos e equipamentos são levados em conta. Os benefícios para as pessoas em termos de saúde mental e relacionamento com os colegas são menos evidentes. Alguns aprenderam a gostar da interação por meio das telas. Outros se irritam com a falta de habilidade dos colegas de desligar o microfone.

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Videochamadas não devem ir embora tão cedo  Foto: Loren Elliott/Reuters

Independentemente de como as pessoas se sentem, o trabalho remoto chegou para ficar, afirma Tsedal Neeley, da Faculdade de Administração de Empresas de Harvard. O truque, argumenta ela, será manter os aspectos positivos e encontrar maneiras de contornar os negativos.

‘Fatia do Zoom’

Um ano após o início da pandemia, muita gente sofre de fadiga em relação ao Zoom. Uma nova pesquisa da Universidade Stanford revelou a ciência por trás desse fenômeno. O principal problema das chamadas em vídeo é forçar as pessoas a encararem os colegas em close-up na tela. Falar com alguém pelo laptop usando a configuração padrão do Zoom faz a cara das pessoas na tela parecer tão grande quanto seria se ambos estivessem a 50 centímetros de distância. Com essa proximidade, o cérebro está programado para esperar um soco ou um beijo. O contato visual incessante torna a experiência ainda mais perturbadora. As pessoas raramente se olham nos olhos por muito tempo durante reuniões presenciais.

Em videochamadas, os participantes olham para as telas constantemente – e depois se perguntam por que sentem como se todos os estivessem encarando ao mesmo tempo. Jeremy Bailenson, diretor do Laboratório de Interação Humana Virtual da Universidade Stanford e principal autor do estudo, compara a experiência a espremer colegas de trabalho em um elevador e proibi-los de desviar o olhar.

Conexão ruim

As videoconferências também eliminam importantes comunicações não verbais. As pessoas mexem a cabeça enfaticamente tentando transmitir mensagens não verbais, que em reuniões presenciais seriam transmitidas naturalmente. Isso é cansativo. Na vida real, conseguimos ver quando os colegas ficam impacientes conforme a sua apresentação se arrasta. Isso fica menos óbvio online. As pessoas falam 15% mais alto em videochamadas do que presencialmente, o que se torna exaustivo. Atrasos nas transmissões, comuns quando a conexão de internet é ruim, dificultam a comunicação. Um lapso de apenas 1,2 segundo torna os participantes menos atentos e amigáveis.

É difícil construir confiança sem esses elementos não verbais de comunicação, afirma Paul Fisher, que leciona técnicas de negociação na Faculdade Saïd de Administração de Empresas, da Universidade de Oxford. Ele iniciou recentemente um módulo de comunicação virtual. Qualquer demora em responder a um e-mail ou olhar enviesado em uma chamada de vídeo levanta desconfianças. Negociações virtuais têm “mais chance de gerar impasses”, afirma Fisher, quando os negociadores têm dificuldade para entender as emoções uns dos outros e ficam frustrados.

Olhar constantemente para a própria imagem durante essas chamadas também é desgastante. Em junho de 2020, Gabrielle Pfund, na Universidade Washington, pesquisou mulheres – recortando sua pesquisa pelo sexo porque mulheres relatam com mais frequência do que homens problemas com autoimagem -, e as entrevistadas relataram que passam em média 40% do tempo das chamadas de vídeo olhando para o próprio rosto. Ficar olhando constantemente para suas rugas e olheiras não faz bem para a autoestima.

Reuniões virtuais resultaram em emoções contraditórias para mulheres de outras maneiras. Em uma pesquisa envolvendo mulheres que trabalham com engenharia e tecnologia, quase um terço das entrevistadas afirmou que foi interrompida ou ignorada enquanto falava com mais frequência nessas reuniões do que em encontros presenciais. Mas reuniões virtuais também libertam mulheres de julgamentos cansativos.

Assistindo à Netflix? Pense novamente

O ano passado também mostrou que, para a surpresa de alguns chefes, muita gente trabalha melhor de pijamas. De acordo com um estudo que envolveu 3 milhões de funcionários de 21,5 mil empresas, publicado em setembro pela Faculdade de Administração de Empresas de Harvard, eles cumpriram jornadas mais extensas, responderam mais e-mails e compareceram a mais reuniões  quando a pandemia começou e o trabalho migrou para o ambiente online.

Isso tornará mais difícil no futuro que gerentes recusem pedidos de funcionários para trabalhar de casa. “Uma das grandes questões em março do ano passado era: será que as pessoas simplesmente passarão o dia inteiro assistindo à Netflix?”, afirma Jared Spataro, diretor de Trabalho Moderno da Microsoft.

Parece que não.

Trabalhar remotamente tem suas vantagens. Em chamadas de vídeo, todos aparecem em espaços com o mesmo tamanho, arranjados aleatoriamente; isso contém certo grau de democracia. Indicadores de status, como sentar-se à cabeceira da mesa ou próximo ao chefe, desapareceram. Quando os fusos horários permitem, funcionários em qualquer parte do mundo podem ouvir as ordens de seus chefes diretamente em reuniões coletivas e podem trabalhar com colegas que estão distantes fisicamente.

Algumas pessoas não se sentem à vontade com a confusão de limites entre a vida profissional e o lar, mas isso também ajuda colegas de trabalho a se conhecerem melhor. Um em cada cinco trabalhadores conheceu virtualmente bichos de estimação ou a família de colegas durante a pandemia, de acordo com uma pesquisa da Microsoft. Isso aproxima as pessoas.

Um em cada seis trabalhadores chorou diante de um colega, conforme o estresse causado pelos confinamentos cobrava seu preço, de acordo com a mesma pesquisa. “Anteriormente, as pessoas tinham o personagem do trabalho e o personagem do lar”, afirma Krish Ramakrishnan, do BlueJeans, o serviço de videoconferência da Verizon Communications, um grupo americano de telecomunicações. “Durante a pandemia existe somente um personagem.”

Trabalhar de casa, no longo prazo

Outros aspectos são menos agradáveis. Morag Ofili, advogada de Londres, mudou de emprego no ano passado. Drinques virtuais com os novos colegas pareceram divertidos no início, mas Morag logo descobriu que confraternizar com desconhecidos em videochamadas é constrangedor e não tem a mesma “energia” do pub. “Basicamente estou sozinha em um quarto”, afirma ela.

Para o bem ou para o mal, um modelo híbrido entre reuniões online e presenciais parece inevitável para o pós-pandemia. Uma pesquisa da PwC realizada no fim de 2020 revelou que mais de 80% dos empregadores reconhecem que o trabalho remoto é um sucesso. Cerca de 70% dos executivos estão planejando aumentar o investimento em ferramentas para trabalho virtual. Quase 65% planejam injetar dinheiro no treinamento de gerentes, para ensiná-los a lidar com a força de trabalho virtual.

Os próximos meses serão dedicados a encontrar maneiras de evitar os piores aspectos do teletrabalho. Harry Moseley, diretor de informação do Zoom, leva o cachorro para passear duas vezes ao dia em um pequeno trajeto. Ele opta por chamadas somente de áudio quando está fora ou por falar brevemente com os colegas que conhece melhor. Videoconferências incessantes em jornadas de trabalho de oito horas deixam os usuários exaustos e com o traseiro dolorido.

Depois de um ano trabalhando de casa, mais de 40% dos trabalhadores entrevistados para a pesquisa, em 31 países, afirmaram que ainda sentem falta de equipamentos de escritório essenciais, como impressoras. Um em cada dez não possui conexão de internet adequada. Gerentes estão usando a imaginação para manter suas equipes engajadas.

Courtney Hohne é a diretora de comunicação da empesa de desenvolvimento X, um discreto braço da Alphabet, dona do Google. Ela usa cartões com várias expressões anotadas para quebrar o gelo e iniciar conversas francas e informais. As expressões variam entre “foi algo que você disse” e “você não tem ideia do que está acontecendo por aqui”. Se nada disso funcionar, os colegas de trabalho podem criar vínculos falando a respeito da chatice desses exercícios.

Um uso mais sofisticado da tecnologia vai melhorar a experiência do trabalho virtual. Muitas empresas forçadas ao ambiente online no ano passado se apressaram em usar videoconferências para todo tipo de trabalho. Mas outras ferramentas funcionam melhor para diferentes tarefas.

Na LeanIn.Org, uma organização de mulheres que encoraja o trabalho remoto desde muito antes da pandemia, as equipes usam documentos compartilhados do Google Docs. Isso permite uma dinâmica de “trabalho assíncrono”, na qual colegas trabalham na mesma tarefa, mas cada qual a seu tempo.

As reuniões começam com um brainstorm silencioso, usando a Jamboard, uma lousa virtual. O objetivo, afirma Rachel Thomas, chefe do grupo, é a comunicação por diferentes maneiras, para incluir todas as pessoas – de pensamento vagaroso ou rápido, verbal ou visual, de temperamento introvertido ou extrovertido.

Os fabricantes desses produtos também tentam melhorá-los. Para estruturar uma “jornada sem forma”, o Microsoft Teams está introduzindo uma “ida ao trabalho virtual”, que coloca suavemente o foco dos usuários em sua jornada de trabalho com perguntas a respeito do que eles têm de fazer. Com novos filtros, os usuários do Zoom podem colocar um chifre de unicórnio na testa para aliviar a tensão. A empresa também lançou uma opção de criptografia de ponta a ponta para afastar preocupações com privacidade.

A tecnologia ajudará aqueles que decidirem continuar trabalhando de casa a se sentir mais incluídos. A função Zoom Rooms, para salas de conferência, recebe como atualização uma ferramenta de “galeria inteligente”. Câmeras vão filmar os rostos das pessoas presentes fisicamente nas reuniões, para serem exibidos lado a lado nas telas de quem participar virtualmente.

Esse futuro pode parecer solitário e cansativo. Mas quem já trabalhava remotamente antes da pandemia, como Tara Van Bommel, da Catalyst, uma organização sem fins lucrativos, afirma que as coisas serão diferentes. Como Tara assinala: “Normalmente, no fim do dia você vai encontrar os amigos”. Trabalhar pelo Zoom deverá se mostrar menos cansativo quando o resto da vida voltar a ser offline. /TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

Fonte: Estadão

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