Tentativa de compra de vacinas por empresas esbarra em desacordo sobre doação ao SUS

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Parte do setor produtivo queria comprar imunizantes e usar 50% das doses para vacinar funcionários; grandes empresas, porém, foram contra ‘furar a fila’ dos grupos prioritários

Fernando Scheller, O Estado de S.Paulo

25 de janeiro de 2021 | 13h52

Uma nova tentativa de um grupo de empresários para compra de vacinas com dinheiro privado, iniciada no fim da semana passada, esbarrou na discordância entre as empresas sobre o modelo a ser adotado para distribuição de vacinas. Segundo uma carta que circulou entre líderes associações de diferentes setores, existiria um lote de 33 milhões de vacinas da Oxford/AstraZeneca disponível para compra, com a obrigação de compra de pelo menos 11 milhões de doses de uma só vez.

A ideia de comprar vacinas logo se espalhou por grupos de WhatsApp: “Parecia, na sexta-feira, que tinha chance de dar certo”, segundo um industrial que conversou com o Estadão. No entanto, a iniciativa esbarrou no formato de distribuição dos imunizantes a serem adquiridos. Enquanto parte do empresariado defendia o uso de 50% dos imunizantes para vacinar funcionários, com a doação da outra metade ao Sistema Único de Saúde (SUS), grandes empresas acreditavam que todo o lote deveria ser destinado ao sistema público.

Vacina

Empresários criticam a organização do governo em relação à pandemia, que está ‘ruim’ e ‘cheia de imprevistos’. Foto: Felipe Rau/Estadão

Essa segunda posição foi defendida justamente por algumas das maiores empresas do País, como o banco Itaú, a Vale e a Petrobrás, informou uma fonte próxima às conversas. Enquanto parte do empresariado acredita que estaria ajudando o governo na imunização ao dar prioridade a seus funcionários, outras companhias são da opinião de que não se deve “furar a fila” dos grupos de risco determinados pelo Ministério da Saúde: profissionais de saúde, indígenas, quilombolas e idosos.

Com as três gigantes saltando do barco, a compra do lote de milhões de vacinas ficou mais difícil, especialmente diante da exigência de uma cota mínima tão alta. O custo estimado das vacinas, na carta que circulou entre os empresários, seria de US$ 23,79 – preço muito superior aos US$ 5,25 por dose que teriam sido pagos na compra da mesma vacina pelo governo federal pelo lote que chegou ao País na sexta-feira, 22.

Outro ponto que surpreende nesse movimento é a disponibilidade dessa vacina em um momento em que a AstraZeneca é criticada pelo atraso na entrega de lotes prometidos há meses para a União Europeia. A vacina desenvolvida pela Universidade de Oxford é citada como uma boa opção pelos empresários porque já tem aprovação para uso emergencial da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Procurada, a mineradora Vale afirmou, em comunicado, que foi convidada a participar da discussão, mas “declinou da iniciativa”. “A política da companhia é de doação integral que venham a ser adquiridos para apoiar os esforços oficiais de combate à covid-19. Desde o início da pandemia, a Vale vem oferecendo ajuda humanitária no Brasil e nos países onde está presente.” Procurados, Itaú e Petrobrás não quiseram comentar o tema.

Difícil relação

Não é a primeira vez que empresários se mobilizam para comprar imunizantes por conta própria. Até agora, porém, não obtiveram aval do governo para realizar a operação. Em reunião realizada há cerca de duas semanas com os ministérios da Saúde, da Casa Civil e das Comunicações, empresas foram informadas de que o governo realizaria toda a imunização e de que não haveria necessidade de ajuda de empresários. À época, o governo disse que teria doses suficientes para vacinar a população e que a compra por empresas seria proibida.

Estadão conversou com duas fontes que participaram da reunião e que, no dia, disseram ter saído “mais tranquilos” do encontro. No entanto, com as idas e vindas após a reunião – inclusive com o atraso na liberação da vacina de Oxford pela Índia –, o setor produtivo subiu o tom das críticas de empresários em relação à lentidão da vacinação, criticando a desorganização e os desencontros do Ministério da Saúde e do Palácio do Planalto.

Fonte: Estadão

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