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Bolsonaro tinha 3 correntes

Uma dava 17% nas pesquisas

A outra, era a elite empresarial

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Com a saída do ex-ministro da Justiça Sergio Moro do governo, o presidente Jair Bolsonaro perdeu uma perna importante do apoio ao seu governo, que vem do pacto realizado nos segundo turno da eleição –quando ele saltou de 17% das intenções de voto em primeiro turno para a maioria que o elegeu ao Palácio do Planalto no segundo turno.

Essa frente tinha três correntes importantes. A perna original, que dava a Bolsonaro 17% nas pesquisas de intenção de voto no início da corrida eleitoral, alinhava-se com ele nas questões culturais e ideológicas, além do embate contra a corrupção, associada ao lulopetismo.

Uma segunda corrente era formada pela elite empresarial, que representa pouco em número de votos, mas dava a Bolsonaro amparo financeiro e um rumo para colocar a economia nos eixos.

A terceira corrente, eleitoralmente maior que todas as outras, era formada pela massa de brasileiros que não necessariamente gostavam dele, mas o achavam um mal menor que o lulopetismo, dada a situação de ter de escolher entre um e outro no segundo turno.

Essa fatia da população, que ao tempo da eleição somava mais de 30% do eleitorado, é a que se identifica mais com Moro, o juiz da Lava Jato, combatente da corrupção, sem identificação partidária e ideológica clara.

Ao defenestrar Moro, forçando sua saída, Bolsonaro desmancha a frente que o elegeu, colocando fora da sua base a grande parcela dos brasileiros que não compartilham de suas ideias autoritárias e reacionárias, e o apoiaram somente em nome do fim da corrupção.

A segunda corrente de apoio ao presidente, a dos empresários, também se enfraqueceu. Primeiro, porque o próprio Bolsonaro tem se tornado o maior obstáculo à retomada do crescimento, com uma gestão tumultuada, que tira a tranquilidade necessária para a retomada dos investimentos.

E, agora, pelo fato de que o fiador desse apoio, o ministro da Economia, Paulo Guedes, viu seu projeto liberal virar poeira, com a pandemia do vírus corona.

A base da política de Guedes, que era a redução do Estado e o ajuste fiscal, foi para o ralo com a necessidade de o poder público vir em socorro da população e também dos mercados com a pandemia. O plano para regenerar a economia, com mais investimento público, já nem é coordenado por ele, e sim pela área militar do Palácio do Planalto, tendo à frente o ministro da Casa Civil, o general Braga Netto.

Em si, a retomada da economia com ajuda do Estado não é ruim –depende de como for administrada. Em todo o mundo, governos buscam recursos para contornar a crise aprofundada pela pandemia. Ninguém no planeta acha agora que será a iniciativa privada quem vai liderar esse imenso esforço coletivo.

Isso significa que todos terão de fazer algum sacrifício, porque essa conta será paga por todos, mais adiante. E inevitavelmente quem tem mais acabará pagando mais –o que não era bem a ideia de Guedes, um protetor natural dos bancos e do capital de maneira geral. O empresariado não sabe ainda o que vai sair dessa situação.

Para Bolsonaro, a dissolução da sua base de apoio popular, consolidada por essa frente na eleição, significa que seu governo entra numa nova fase, sem os pilares representados por Moro e Guedes.

Fia-se na sua militância, cevada pelo meio virtual, agora sob ataque da Justiça, que cobra responsabilidades pela rede de fake news criada pelo bolsonarismo. A principal arma do presidente agora pode ser usada contra ele, levando de roldão seu filho Carlos, articulador da rede.

Para evitar o progresso da CPI das fake news, e buscar os recursos de que precisava na pandemia estourando o orçamento, restou a Bolsonaro buscar apoio justamente naqueles que esconjurava para se eleger: a base congressista cujo bojo é o centrão, o velho bloco fisiológico que deu sustentação a outros governos pouco sustentáveis do passado.

Bolsonaro pode ter entregado ao Centrão como presente a cabeça de Moro, seu arqui-inimigo, em troca de apoio sobretudo na aprovação de gastos extraordinários para combater a crise econômica e suprir necessidades da saúde. Esse, porém, é um movimento que já colocou outros presidentes como reféns de lobos famintos. “As forças ocultas são terríveis”, afirma um militar com passagem no Palácio do Planalto.

Sem ter conseguido construir uma base de apoio parlamentar própria, e com apoio popular em declínio, Bolsonaro coloca Moro do lado de fora ao mesmo tempo em que se alinha com as forças do fisiologismo. Passa a ser apoiado publicamente agora por figuras bem conhecidas da opinião pública, como Roberto Jefferson e Valdemar Costa Neto, justamente o tipo de político contra o qual se elegeu.

Isso significa que, em vez de mudar alguma coisa, esta é mais uma gestão que já luta apenas para chegar ao final. Derrubado de vez ou respirando por aparelhos. Bolsonaro, ficou parecido com os presidentes anteriores, que se elegeram de uma forma, e tiveram de governar de outra, vítimas de seus erros, por um lado, e de outro pelas imposições diabólicas do sistema político brasileiro.

Mais um sinal de que é preciso reformar o sistema, incluindo o eleitoral, se quisermos terminar com essa linhagem de presidentes que acabam na vala comum onde já se encontram Lula, Dilma e Temer.

Fonte: Poder 360

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