Pouco confiável, teste rápido de covid pode levar a comportamento de risco

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Farmácias e drogarias estão autorizadas pela Anvisa a realizar testes rápidos para o novo coronavírus

Giovana Girardi e Roberta Jansen, O Estado de S.Paulo

29 de abril de 2020 | 05h00

A possibilidade de realizar testes rápidos para o novo coronavírus em farmácias, aprovada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), pode ser pouco confiável para o diagnóstico individual da doença e ainda levar as pessoas a comportamentos de risco. A ferramenta faz mais sentido para estudos epidemiológicos, para ajudar a compreender a distribuição da doença na população de forma geral, segundo especialistas ouvidos pelo Estado, do que como um “passaporte imunológico”. Mas ainda assim há limitações.

O teste que será oferecido nas farmácias detecta a presença de anticorpos para o vírus no sangue. Os anticorpos, no entanto, só são detectáveis a partir do sétimo dia do surgimento dos sintomas da infecção; preferencialmente, dez dias depois. Pessoas que já têm o vírus, mas não apresentem sintomas, vão testar negativo. Ou mesmo alguém que já esteja se sentindo mal pode ir à farmácia e sair de lá com um resultado negativo.

Profissional de saúde usa cotonete em um homem para coletar amostra para testes de COVID-19, em Gombak, nos arredores de Kuala Lumpur Foto: Mohd Rasfan/AFP


Outro problema é que esses testes que foram aprovados em massa pela Anvisa têm apresentado sensibilidade baixa, de cerca de 60% a 70%, segundo Carlos Eduardo Ferreira, da Sociedade Brasileira de Patologia Clínica / Medicina Laboratorial. “Ou seja, pelo menos 30% dos testes ainda podem dar falso negativo. Nos primeiros dias de sintomas, a chance de falso negativo é ainda maior.” A partir do 14º dia, a chance de acerto é ainda maior, tempo em que normalmente os sintomas já desapareceram.

Quando o resultado for positivo, a margem de erro é bem menor, mas existe. A presença de anticorpos para outros coronavírus circulantes e o fato de ter tomado determinadas vacinas, por exemplo, podem levar a resultados de falso positivo. O indivíduo pode acreditar que já teve a doença e que, portanto, estaria imune ao vírus, deixando de cumprir regras de proteção. Além disso, já foram constatados na UFRJ casos de pessoas que têm os anticorpos, mas também têm o vírus ativo, ou seja, continuam transmitindo.

A própria imunidade conferida pela infecção é ainda questionável. A Organização Mundial de Saúde (OMS) disse que, embora essa imunidade seja provável, ela não é uma certeza absoluta. Também não se sabe, por exemplo, por quanto tempo uma possível imunidade conferida pela doença seria válida.

“Muitas perguntas sobre esse vírus ainda não foram respondidas; acho que o uso indiscriminado dos testes sem interpretação médica pode gerar ainda mais confusão”, aponta o virologista Amilcar Tanuri, do Laboratório de Virologia Molecular da UFRJ e integrante do grupo de diagnóstico da força-tarefa da universidade contra a covid-19. “Os farmacêuticos vão orientar as pessoas, falar sobre todas essas questões? Vão encaminhar as pessoas a hospitais, se for o caso? Vão notificar o ministério?”.

Para a bióloga Natália Pasternak, do Instituto de Ciências Biomédicas da USP, os testes de farmácia podem causar confusão e levar a comportamentos de risco. Segundo ela, isso aconteceu em Brasília. “Pessoas que fizeram teste na rua saíram dizendo ‘graças a Deus deu negativo’. Mas isso não quer dizer nada. Pode ser um falso negativo, pode ser que nunca esteve doente, que está doente e ainda não desenvolveu o anticorpo. Ela pode achar que está segura e vai visitar os pais idosos.”

O infectologista Fernando Bozza, da Fiocruz, lembra que todos esses testes são muito novos e que há vários projetos de validação desses diagnósticos em andamento em todo o mundo. “Mesmo ao usarmos os melhores testes, os mais recomendados, precisamos saber das limitações deles”,diz ele, que está coordenando o projeto Dados do Bem, do Instituto Dor de Pesquisa e Ensino (Idor), cujo objetivo é criar mapas de distribuição da covid-19 no Estado, a identificação de concentração da transmissão e a análise da evolução da imunidade da população.

Segundo ele, os testes são muito bons para tais levantamentos epidemiológicos, como aqueles que buscam não um diagnóstico individual, mas uma tendência populacional. É possível, por exemplo, determinar em que regiões o vírus é mais prevalente, se há concentrações em áreas específicas, como a infecção está se disseminando no País, qual o percentual da população que já teve a doença, entre outras.

O médico Ricardo Schnekenberg, doutorando em neurociências clínicas na Universidade de Oxford (Reino Unido) que criou um blog de notas sobre os avanços científicos em relação à covid-19, lembra que outros países que tentaram comprar esses testes rápidos em massa acabaram se arrependendo, como Espanha e Inglaterra.

“A Inglaterra comprou 2 milhões de testes, eles foram testados para validação aqui em Oxford e se viu que são muito ruins, não serão usados. A Espanha está tentando devolver”, diz. “Os melhores testes do mercado têm sensibilidade de 80% (a capacidade de acertar se é positivo) e especificidade média de 94% (a capacidade de acertar o resultado negativo). Para fins de estudos epidemiológicos, essas taxas são aceitáveis e é possível fazer correções para medir a prevalência na população, mas para o nível individual, não”, defende.

“Se a população estiver fazendo o teste para saber se está contaminada ou não e tomar decisões, isso está errado”, complementa Schnekenberg.


Testes de coronavírus em laboratório Foto: REUTERS/Axel Schmidt


Ele ressalta que esses testes estão sendo criados com base ainda em pouca ciência. “Se pensarmos que provavelmente o paciente com mais longo tempo de recuperação na pandemia deve ter uns 4 meses… é tudo muito novo.”

Uma das dúvidas que tem afligido médicos e a comunidade científica é se as pessoas estão ficando imunes mesmo à doença depois de curadas ou não. “Há uma falha da liderança no País em falar para as pessoas ficarem em casa, seguirem uma regra, e agora esses testes surgem como uma porta de escape com informação incorreta para as pessoas se agarrarem e fazerem o que quiser”, opina Schnekenberg.

“Do ponto de vista epidemiológico, esses testes rápidos podem servir para desafogar os cofres públicos ao jogar os testes para o privado. As pessoas vão pagar pelo teste e as informações serão repassadas para as secretarias de Saúde. Mas há alguns problemas”, afirma Natalia.

Mas ela pondera que esses testes não serão representativos da população, uma vez que provavelmente só serão feitos por quem pode pagar, o que gera um viés para fins epidemiológicos.

Outro problema, diz, é que o momento pode ainda não ser o ideal para oferecer um panorama de como a doença se distribui na população porque ainda não existe uma parcela significativa que já tenha gerado anticorpos – visto que a curva da doença ainda é ascendente.

“Pode se desperdiçar testes com isso. Lembrando que confiabilidade desses testes rápidos aumenta quanto maior for o número de pessoas já com anticorpos. O ideal para fazer isso seria esperar a curva estabilizar para poder testar e conseguir ver uma imunidade de rebanho”, afirma Natalia.

Fonte: Estadão

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