Plano para criar plantas bioluminescentes é criticado

Trabalhadores da Força Sindical preparam ação por mudanças na correção do FGTS
Doenças do trabalho: saiba como prevenir

plantas bioluzNa esperança de dar um novo significado ao termo “luz natural”, um pequeno grupo de entusiastas e empresários da biotecnologia criou um projeto para desenvolver plantas que brilham, podendo abrir caminho para o surgimento de árvores que podem vir a substituir os postes elétricos e flores em vasos luminosas o suficiente para iluminar um ambiente no qual se possa ler.

O projeto, que vai usar uma forma sofisticada de engenharia genética chamada biologia sintética, está atraindo atenção não só por sua meta audaciosa, mas pelo modo como ele está sendo realizado.

Ao invés de ser comandado por uma grande empresa ou um laboratório acadêmico, ele será desenvolvido por um pequeno grupo de cientistas amadores em um dos muitos laboratórios comuns que estão surgindo ao redor dos Estados Unidos à medida que a biotecnologia se torna barata o suficiente para dar origem a um movimento do tipo “faça você mesmo”.

O projeto também está sendo financiado à maneira do “faça-você-mesmo”: ele já recebeu mais de 250 mil dólares junto a cerca de 4.500 doadores em cerca de duas semanas no site Kickstarter.

A iniciativa não é a primeira do gênero. Um grupo universitário criou uma planta luminescente de tabaco alguns anos atrás, por meio da implantação de genes de uma bactéria marinha que emite luz. Mas a luz era tão fraca que podia ser percebida somente quando se observava a planta por pelo menos cinco minutos em uma sala escura.

Os objetivos do novo projeto, pelo menos nesse momento inicial, são igualmente modestos. “Esperamos criar uma planta que possa ser claramente vista no escuro (como aquelas tintas que brilham no escuro), mas não esperamos substituir as lâmpadas às quais estamos habituados já na versão 1.0”, diz a página do projeto no Kickstarter.

No entanto, uma parte dos objetivos é mais controversa: promover a biologia sintética do tipo “faça-você-mesmo” e “inspirar outras pessoas a criarem novos seres vivos”. Por mais promissor que isso possa parecer para alguns, os críticos estão preocupados com a ideia de amadores criarem coisas vivas em suas garagens. Eles temem que organismos perigosos possam ser criados, intencional ou acidentalmente.

Duas organizações ambientais, a Friends of the Earth e o Grupo ETC, escreveram para o Kickstarter e para a Secretaria de Agricultura dos EUA, que regulamenta as culturas geneticamente modificadas, buscando colocar um ponto final no projeto de desenvolvimento da planta luminescente.

O projeto “provavelmente resultará na liberação generalizada, aleatória e descontrolada de plantas e sementes modificadas pela bioengenharia e produzidas por técnicas controversas e arriscadas da biologia sintética”, disseram os dois grupos na carta, exigindo a remoção do projeto do site Kickstarter.

Eles observam que o projeto se comprometeu a ceder sementes para muitos de seus quatro mil colaboradores, tornando-se, talvez, a “primeira liberação intencional de organismos ‘biologicamente sintéticos’ da história do mundo”.

O Kickstarter respondeu dizendo que os críticos devem levar as suas preocupações aos organizadores do projeto. A Secretaria de Agricultura ainda não respondeu.

Antony Evans, diretor do projeto da planta luminescente, disse em uma entrevista que a atividade seria segura.

“O que estamos fazendo é muito idêntico ao que já é feito em laboratórios de pesquisa e grandes instituições há 20 anos”, disse ele. Ainda assim, acrescentou: “Estamos muito conscientes do precedente que estamos abrindo” com esse projeto do tipo “faça-você-mesmo”, e disse que parte do dinheiro arrecadado seria usada para explorar questões de políticas públicas.

A biologia sintética é um termo nebuloso, e é difícil dizer se ela chega a diferir da engenharia genética.

Em sua forma mais simples, a engenharia genética envolve extrair um gene de um organismo e inseri-lo no DNA de outro. A biologia sintética costuma envolver a síntese do DNA a ser inserido, proporcionando que essa flexibilidade ultrapasse os genes encontrados na natureza.

O projeto da planta luminescente é ideia de Evans, um empresário da área de tecnologia que mora em São Francisco, e de Omri Amirav-Drory, bioquímico. Eles se conheceram no programa Singularity University, que apresenta formas futuristas de tecnologia para empresários.

Amirav-Drory dirige uma empresa chamada Genome Compiler, que faz um programa que pode ser usado para criar sequências de DNA. Quando a sequência é produzida, ela é enviada para uma fundição que sintetiza o DNA.

Kyle Taylor, que concluiu doutorado em biologia molecular e celular na Universidade de Stanford no ano passado, ficará encarregado de inserir o DNA sintético na planta. A pesquisa será feita, pelo menos inicialmente, no BioCurious, um laboratório comunitário do Vale do Silício, que se apresenta como um “hacker-espaço de biotecnologia”.

A primeira planta que o grupo está modificando é a Arabidopsis thaliana, que faz parte da família da mostarda e é conhecida como o rato de laboratório do mundo vegetal. Os organizadores esperam desenvolver uma rosa luminescente em seguida.

Os cientistas produzem criaturas luminescentes para fins de investigação já há algum tempo, incluindo macacos, gatos, porcos, cães e minhocas. Peixes-zebra luminescentes são vendidos em algumas lojas de aquário há anos.

Costuma-se inserir um gene associado a uma proteína fluorescente verde, derivada de uma medusa, no DNA dessas criaturas. Mas elas brilham apenas quando há luz ultravioleta incidindo sobre elas.

Outros, na década de 1980, transplantaram o gene associado à luciferase, uma enzima usada pelos vagalumes, em plantas. Mas a luciferase não funciona sem outra substância química chamada luciferina. Assim, as plantas só brilhavam se recebessem luciferina constantemente. Em 2010, pesquisadores da Universidade Stony Brook anunciaram na revista PLoS One que haviam criado uma planta de tabaco que brilhava por conta própria, mesmo que de forma discreta. Eles reuniram na planta todos os seis genes de uma bactéria marinha necessária para produzir tanto luciferase quanto luciferina.

Alexander Krichevsky, que liderou a pesquisa, abriu uma empresa, a BioGlow, para comercializar plantas luminescentes, começando com as ornamentais, uma vez que a substituição de lâmpadas ainda é impraticável.

“Quem não gostaria de ter belas flores que brilham no escuro?”, disse ele, invocando a folhagem luminescente que aparece no filme “Avatar”.

Krichevsky se recusou a fornecer mais informações sobre os produtos, cronogramas ou investidores que apoiam sua empresa, que tem sede em St. Louis.

Ainda não se sabe se será possível substituir as lâmpadas um dia, e isso depende, em certa medida, da quantidade de energia da planta que poderá ser dedicada à produção de luz, sem que isso interfira negativamente em seu crescimento. Evans disse que seu grupo calcula, embora ainda com base em muitas hipóteses, que uma árvore que cubra um terreno de 10 por 10 metros pode vir a emitir uma quantidade de luz semelhante à de uma lâmpada de rua.

Embora a Secretaria de Agricultura regulamente as plantas geneticamente modificadas, ela o faz sob uma lei que abrange as pragas que afetam as plantas.

A BioGlow já recebeu uma carta da Secretaria que diz que a empresa não vai precisar de aprovação para liberar suas plantas luminescentes, porque elas não são pragas, nem produzidas com pragas que atacam as plantas. O projeto voltado para amadores espera conseguir a mesma isenção.

Todd Kuiken, pesquisador associado sênior do Centro Woodrow Wilson, em Washington, que vem estudando o modo como o governo atua tanto em relação à biologia sintética quanto ao movimento de “faça-você-mesmo”, disse que o projeto da planta luminescente é um caso paradigmático ideal.

“Ele expõe as lacunas e o que falta na estrutura regulatória, sendo ao mesmo tempo, eu diria, um produto seguro no esquema das coisas em uma escala mais ampla”, disse Kuiken. “Precisamos ficar muito atentos ao sistema regulatório a fim de verificar se ele é capaz de lidar com as questões que a biologia sintética vai colocar.”

The New York Times News Service/Syndicate

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Sindicalize-se
Falar pelo WhatsApp
Enviar via WhatsApp