O maior teste político de Cristina Kirchner

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Só Néstor Kirchner escapou de enfrentar uma greve geral entre todos os presidentes da Argentina desde Raúl Alfonsín, nos anos 80. A primeira de Cristina Kirchner, que “herdou” o poder de Néstor em 2007 e se reelegeu em 2011, acontece a partir da zero hora desta terça-feira (20). O porcentual de trabalhadores que vão aderir e o número de argentinos possivelmente prejudicados pela interrupção de vários serviços são incertos, mas o estrago da paralisação não será pequeno. Algumas linhas de metrô em Buenos Aires não vão funcionar e estão previstos bloqueios em várias estradas que chegam à região metropolitana. Os postos de gasolina estarão fechados. A companhia Aerolíneas Argentinas anunciou que seus voos podem ser atrasados ou cancelados por causa da provável adesão dos aeroviários à greve. O governo vai multar quem deixar lixo na frente de casa antes de quarta-feira, pois a coleta também será suspensa nesta terça.

A origem da mobilização é um reflexo da falta de diálogo de Cristina, tomada por uma empáfia ainda maior depois de sua reeleição. A greve é liderada por três centrais sindicais que romperam com o governo. O principal dirigente envolvido, o ex-caminhoneiro Hugo Moyano, da Confederação Geral do Trabalho, era um ardoroso kirchnerista. No ano passado, foi à Casa Rosada pedir aumento do repasse aos sindicatos nos programas sociais do governo. Também cometeu o pecado de citar “a inflação dos supermercados”, numa referência aos preços reais dos produtos e aos índices fabricados pelos órgãos oficiais. Moyano caiu em desgraça e passou para o lado da oposição. Ameaçava há tempos connvocar a paralisação, mas Cristina pouco ou nada fez para evitar esse desgaste.

Os índices de popularidade da presidente mostram como sua imagem está se desfazendo no segundo mandato. O governo de Cristina tinha 70% de aprovação logo após a vitória nas urnas, em outubro de 2011, segundo a consultoria independente Poliarquía. Um ano depois, a avaliação de sua administração já é mais negativa do que positiva (39% a 37%). Numa pesquisa recente de outra consultoria, a Management & Fit, Cristina teve 21% de avaliação “positiva”, ante 28% “regular” e 42% “negativa”. Pior: 64% dos entrevistados concordaram com o último “panelaço” contra Cristina, realizado por manifestantes de classe média-baixa em Buenos Aires no dia 8 de novembro. Cerca de 700 mil pessoas saíram às ruas da capital e de outras cidades argentinas para protestar contra a inflação crescente, a queda do padrão de vida e o cerco do governo à posse de dólares por cidadãos argentinos, em uma tentativa desesperada de conter o fluxo de saída da moeda americana do país. Os sindicalistas têm outras reivindicações, como a redução das taxas de imposto de renda para os trabalhadores e a extensão do salário-família (uma ajuda financeira do governo a famílias de baixa renda) para todos os assalariados. Ainda há a crise energética, que vem provocando cortes de luz constantes. O governo tentou diminuir o tamanho da manifestação, mas suas causas persistem. 

Uma greve doze dias depois apenas evidencia a dificuldade de Cristina de convencer os argentinos de que ela merece o direito a um terceiro mandato, nas eleições de 2015. Parlamentares kirchneristas defendem uma reforma na Constituição que permita uma segunda reeleição para beneficiar Cristina, mas um documento de congressistas da oposição com 107 assinaturas foi divulgado no início do mês com uma recusa à proposta.

A paralisação de agora é parte de uma disputa de liderança entre sindicatos. “Uma primeira etapa desta luta sindical será insistir com o plano de que o governo cumpra integralmente suas demandas, mas também há o objetivo de colocar seus homens em lugares estratégicos para as eleições legislativas do ano que vem”, afirma Santiago Sénen Gónzalez, jornalista e historiador sindical da Universidade Torcuato Di Tella. No pano de fundo, está a questão sucessória. Os sindicalistas que antes estavam nas mãos de Cristina agora duvidam de que ela permaneça na Presidência por mais um mandato – e medem forças visando a uma possível redistribuição de poder nos próximos anos.

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