No combate à covid-19, o Brasil está flagrantemente atrasado

Governo quer decreto para ‘simplificar’ regras trabalhistas, mas juízes dizem que é preciso lei
Desemprego é o maior desde 2012 e atinge 13,4 milhões de pessoas em 2020

De um modo geral, um mês depois do início da vacinação, ainda estamos no grupo de 80 anos e mais

Fabio Giambiagi*, O Estado de S.Paulo

26 de fevereiro de 2021 | 04h00

Os EUA, com Joe Biden (detalhe importante), estão vacinando 1,6 milhão de pessoas por dia. Naturalmente, com pessoas começando a ganhar a segunda dose ao mesmo tempo que outras ganham a primeira, isso significa que o número de pessoas, no estágio atual, que ganham imunização contra a covid-19 a cada dia tende a ser da ordem de metade disso. Mesmo assim, é um feito expressivo, apesar do que, mantido o ritmo de vacinação, meus amigos que vivem nos EUA têm a expectativa de que o quadro geral só ficará melhor no último trimestre do ano. Para que o leitor tenha uma ideia, enquanto isso, o Brasil está vacinando a um ritmo de pouco mais de 250 mil pessoas por dia. Se contra a Alemanha perdemos de 7 a 1, em matéria de vacinação, contra os EUA de Biden estamos perto disso. Para colocar uma tragédia humana ainda na linguagem futebolística, no campeonato mundial de vacinação, não é que estejamos no Z4 da Série A: estamos na Série D! No combate à covid-19, o Brasil é o Ibis do planeta – o clube que, na definição da Wikipédia, ganhou o epíteto de “pior time do mundo”. Estamos flagrantemente atrasados.

Vacinação

Considerando a tragédia humanitária que se abateu sobre o Brasil, é essencial começar a acelerar o processo de vacinação. Foto: Igor do Vale/Estadão

Mais de 20 anos de dedicação à causa da Previdência me deram familiaridade com as estatísticas demográficas, com as quais sempre aprendo. Diante dos problemas do dia a dia, esta semana me debrucei sobre as estatísticas do IBGE da Projeção Populacional, feita em 2018 para os anos até 2060. Todas as vezes que lido com essas informações, sinto orgulho pelo que faz o IBGE, uma das instituições ícones de nosso combalido setor público. Lá é possível saber, por exemplo, a estimativa de mulheres de 27 anos que se espera que o Brasil tenha em 2058, por exemplo. Evidentemente, são projeções sujeitas à margem de erro, porque os parâmetros demográficos são mutáveis e sobre eles não se tem controle, mas são um ótimo instrumento para o planejamento das políticas públicas.

Pelas projeções, o número de nonagenários no País (a rigor, com idade de 90 anos ou mais) em 2021, numa população de 213 milhões de pessoas, é de 856 mil indivíduos. Daí para baixo, é possível saber quantas pessoas há em cada idade simples: são 192 mil com exatamente 89 anos; 222 mil com 88 anos; etc. Como a estrutura etária é uma pirâmide, à medida que diminui o número de anos, há mais gente por cada idade simples: 581 mil pessoas com exatamente 80 anos; 1,3 milhão com 70 anos; 2,1 milhões com 60 anos; e assim sucessivamente. Com 40 anos exatos, há 3,3 milhões de pessoas. Agregando por faixas etárias maiores, a conta é a seguinte: 18 e 19 anos: 6,3 milhões; 20 a 29: 34,1 milhões; 30 a 39: 34,3 milhões; 40 a 49: 29,9 milhões; 50 a 59: 24,2 milhões; 60 a 69: 17,3 milhões; 70 a 79: 9,4 milhões; 80 a 89: 3,8 milhões; 90 e mais: 0,9 milhão.

Esse total dá um número arredondado de uma estimativa da população-alvo para vacinar de 160 milhões de indivíduos (75% da população total). Detalhe: de um modo geral, no Brasil, um mês depois do início da vacinação, ainda estamos no grupo de 80 anos e mais!! Façamos uma conta simples arredondada: 250 mil vacinas por dia dão imunidade a 125 mil pessoas por dia, grosso modo. Em breve, para facilitar a conta, vamos assumir que teremos 5 milhões de pessoas com duas doses. Isso significa que faltarão 155 milhões de pessoas. Para sermos mais precisos, ao ritmo atual de 260 mil vacinados por dia, com 130 mil novas pessoas imunizadas a cada dia, seriam necessários quase 1.200 dias (40 meses!), de agora em diante, para alcançar toda a população-alvo… em meados de 2024!! Ao contrário de outros países que souberam se preparar, incorremos numa extraordinária falha de planejamento.

Considerando a tragédia humanitária que se abateu sobre o Brasil, seu impacto no nível de atividade e o efeito da questão sobre as contas fiscais, é essencial começar a acelerar o processo. O Brasil tem pressa – e a lentidão é medida em mortes, desemprego e aumento da dívida pública. É bom alguém gritar: “Houston, temos um problema!”.

Fonte: Estadão

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