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Desemprego deve se agravar e não haverá recuperação da economia sem uma ação firme do governo

Luís Eduardo Assis*, O Estado de S.Paulo

12 de abril de 2021 | 04h00

Parecia que 2021 não seria tão difícil. Há um ano, muitos imaginavam que a esta altura a pandemia estaria controlada. Mas a realidade é mais cruel do que nossos sonhos. Não é preciso citar os números da covid para ilustrar o desastre magnificado pela inépcia negacionista do governo federal. Na economia não estamos melhor. Como se temia, o isolamento social não foi forte o suficiente para controlar a pandemia, mas foi brutal para a atividade econômica. De forma análoga, a reação do governo foi suficiente para explodir a dívida pública, mas não conseguiu evitar uma recessão de dimensão histórica.

Carteira de trabalho

Economistas dizem que melhora no mercado de trabalho está muito ligada ao processo de vacinação contra covid. Foto: Amanda Perobelli/Reuters – 6/10/2020

O nível de emprego é nosso ponto nevrálgico, o nervo exposto do dente cariado da economia. A mensuração desta variável está prejudicada. A pesquisa Caged alterou sua metodologia, o que não impede o governo de comemorar dados que não são comparáveis. Por sua vez, a Pnad, conduzida pelo sofrido IBGE, passou a ser feita por telefone, o que também gera distorções. Ainda assim, o que o IBGE nos conta é trágico. O total de pessoas desocupadas subiu de 11,9 milhões em janeiro de 2020 para 14,3 milhões em janeiro último. O número de pessoas fora da força de trabalho saltou de 65,7 milhões para 76,4 milhões no mesmo período. Também entre janeiro de 2021 e janeiro do ano passado a massa de rendimentos efetivamente recebidos passou, em termos reais, de R$ 255,6 bilhões para R$ 226,5 bilhões, queda de 11,4%. Este tombo foi parecido com a redução no número de pessoas ocupadas no setor privado com carteira assinada, da ordem de 11,6%. O recuo no número de empregadores foi ainda maior, 12,4%. O contingente de trabalhadores domésticos despencou 21,4%, ao passo que no setor de alojamento e alimentação o declínio alcançou 28,1%, sempre na comparação entre janeiro de 2021 e janeiro de 2020. É importante notar que, no mesmo período, o índice de nível de atividade do Banco Central, que guarda grande correlação com o PIB, caiu apenas 0,5%. Isto quer dizer que tanto a atividade como o emprego mergulharam e atingiram pontos mínimos em meados do ano passado, mas na recuperação do segundo semestre o emprego ficou para trás, já que a retomada foi concentrada em setores que geram relativamente menos postos de trabalho. A segunda onda da pandemia tende a agravar este descompasso. Empresas que renegociaram dívidas e postergaram impostos terão agora que enfrentar suas dívidas em plena recessão. Muitas não sobreviverão. Pesquisa da XP-Ipespe de março mostra que 45% dos pesquisados acreditam que é pequena ou muito pequena a chance de manterem o emprego nos próximos seis meses. A mesma enquete registra que 65% acham que a economia está no caminho errado.

O Ministério da Economia não demonstra maior preocupação com o colapso do nível de emprego. Enquanto os EUA rompem com paradigmas fiscais e anunciam um megaprograma de incentivo ao crescimento, ficamos aqui enroscados em dogmas e crenças. O pequeno auxílio emergencial de 2021 foi extraído a fórceps, o programa de sustentação dos empregos formais não foi renovado e a barafunda na aprovação do Orçamento de 2021, em pleno mês de abril, mostra que a política econômica se perdeu. O desemprego ainda vai se agravar no segundo trimestre. A recuperação, mais adiante, será lenta, na ausência de uma ação mais firme do governo. Neste contexto, a popularidade restante do presidente pode derreter ao sol tropical, o mesmo que castiga o exército de famélicos que vemos nas ruas. Contar com Bolsonaro no segundo turno das eleições de 2022 é, no mínimo, precipitado, o que não deixa de ser um alento. O descalabro é clamoroso. O caos é notório. O ajuste de contas, inevitável.

Fonte: Estadão

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