No Brasil, saúde perde prioridade em gastos do governo
Como boas ideias morrem

Nenhuma terapia apresentada foi eficaz, apesar da velocidade e do volume de ensaios clínicos

Sérgio Cimerman, O Estado de S.Paulo

28 de abril de 2020 | 03h00

A pandemia da covid-19 vem nos mostrando cada dia um novo aprendizado. Na questão do tratamento, muitas polêmicas dividem a opinião pública, políticos e médicos envolvidos na ação contra a covid-19. Desde que a possibilidade de tratar com compostos derivados da hidroxicloroquina e cloroquina associados a antibióticos (no caso, a azitromicina) assumiu lugar de destaque na mídia internacional, notamos erros e distorções acerca desta medicação.

A hidroxicloroquina é um medicamento usado em larga escala para pacientes com malária, lúpus e artrite reumatoide. Tem eficácia comprovada para essas doenças, mas a administração precisa ser vigiada por um médico por causa da toxicidade cardíaca.

Qualquer remédio que apresente atividade in vitro (em cultura de células) de eficácia elevada, que funcione para combater determinada doença, não necessariamente terá eficácia in vivo (quando usado em humanos). É importante que isso fique bastante claro sempre que falarmos sobre qualquer medicamento, não apenas da hidroxicloroquina. Os estudos divulgados na sua quase totalidade foram cobertos de vieses, sem apresentarem estudos clínicos randomizados e controlados, sem o rigor científico que deve nortear ensaios clínicos sérios e respeitados pela comunidade cientifica internacional. Nenhum destes estudos foi publicado em revistas médicas de alto impacto e com revisão por pares. Mesmo assim vários hospitais apresentam em seu protocolo a possibilidade de uso.

Alguns estudos estão sendo aprovados pela Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep) com fluxograma extremamente ágil para justamente podermos dar respostas criteriosas e iniciarmos pesquisas sérias em nosso meio, por centros de excelência em pesquisa clínica. Isso já se observa com a hidroxicloroquina após este turbilhão de trabalhos inconsistentes. Qualquer pessoa pode verificar com transparência protocolos aprovados na Plataforma Brasil.

Neste cenário de novos ensaios clínicos, uma nova possibilidade terapêutica denominada nitazoxanida, fármaco de ação antiviral e antiparasitária, pode trazer luz nova, sobretudo em casos moderados da doença. Mereceu destaque na mídia após menção do ministro Marcos Pontes, da Ciência e Tecnologia, que relatou ao redor de 94% de eficácia. Cabe informar que foi um resultado obtido em atividade in vitro. Precisamos agora demonstrar em seres humanos o mesmo benefício para emitir uma opinião favorável ou não.

Esta resposta poderá ser obtida em meses, já com estudo multicêntrico (vários centros de pesquisa) aprovado e conduzido por pesquisadores no Estado de São Paulo. Nesta mesma linha de fármacos, a ivermectina, usada para tratar sarna e várias parasitoses intestinais, também se mostrou potente do ponto de vista de eficácia, em estudo australiano, in vitro. Aqui, cabe um comentário importante: foi acertada a decisão do governo federal de apenas vender, neste momento, a nitazoxanida e ivermectina com receita controlada, evitando assim uso indiscriminado e equivocado pela população.

Minha opinião e da Sociedade Brasileira de Infectologia é que devemos fazer uma medicina baseada em evidências científicas e isso fica claro quando se publica no New England Journal of Medicine, revista de maior prestigio entre a comunidade médica. Foi essa publicação quem primeiro publicou um estudo sério e com diretrizes sobre o lopinavir/ritonavir, medicação extremamente conhecida pelos infectologistas e usada no tratamento de pacientes com aids, que não apresentou benefício clínico nenhum. Após a publicação, não se fala mais desta droga no meio médico, o que mostra a importância de estudo clínico bem dirigido.

Outras possibilidades terapêuticas estão também em investigação e podem ser alvissareiras. Merece destaque o redemsivir, um antiviral de uso endovenoso, utilizado na epidemia de ebola, que deverá ter brevemente seus resultados preliminares divulgados – há possibilidade de eficácia clínica. O uso de plasma convalescente será também outra alternativa nesse arsenal de possibilidades.

Ou seja, até o momento nenhuma terapia apresentada foi eficaz, apesar da velocidade e do volume de ensaios clínicos que estão surgindo. As sociedades médicas não recomendam, portanto, o uso de nenhuma droga para tratamento específico neste momento. Concordo inteiramente com essa orientação. As vacinas que poderiam auxiliar infelizmente estão longe do nosso horizonte – devem apresentar respostas em 12 a 18 meses. É claro que todos temos vontade de encontrar algum tratamento eficaz que diminua o sofrimento dos pacientes e a angústia da população em geral, mas é preciso deixar claro que nesta luta precisamos ter como armas menos empirismo e mais ciência.

EX-PRESIDENTE DA SOCIEDADE BRASILEIRA DE INFECTOLOGIA

Fonte: Estadão

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