Emprego no campo recua com tecnologia e mais produtividade

As 7 principais alterações da legislação trabalhista para 2020
Na média, maior espera na fila do INSS é pelo BPC, de 195 dias

O setor agropecuário deixou de empregar quase 1,8 milhão de pessoas desde 2012. Entre o terceiro trimestre daquele ano e o de 2019, a população ocupada diretamente na atividade diminuiu de 10,3 milhões para 8,5 milhões. Somente na passagem de 2018 ao ano passado, foram 174 mil pessoas a menos trabalhando no campo, apesar de um crescimento estimado de 2,39% da produção agropecuária.

Os ganhos de produtividade, o avanço da mecanização e a maior concentração da produção explicam a redução ano a ano da mão de obra na agricultura, apesar do crescimento quase contínuo da produção no país, dizem especialistas. Segundo eles, no entanto, a renda gerada pelo agronegócio fomenta a criação de empregos em outros ramos da atividade, como a indústria e o setor de serviços.

Conforme números da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a população ocupada nas atividades de agricultura, pecuária, produção florestal, pesca e aquicultura diminuiu a uma média de 2,6% ao ano entre o terceiro trimestre de 2012 e igual período de 2019 – respectivamente, o ano de início da série histórica da Pnad e o dado mais recente disponível.

Em comparação, a população ocupada total cresceu a uma média de 0,7% ao ano neste período, mesmo com as quedas registradas em 2015 e 2016, como resultado da recessão. Entre 2012 e 2019 a produção agropecuária brasileira aumentou em média 3,1% ao ano, com baixas registradas apenas em 2012 e 2016, devido a quebras de safra por problemas climáticos, segundo o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Cepea/Esalq).

Nesse mesmo intervalo de tempo, a participação dos trabalhadores do setor agropecuário na população ocupada brasileira total recuou de 11,5% para 9,1%.

“Essa tendência não é recente, ela vem de muitos anos, com maior ou menor intensidade”, diz Nicole Rennó, pesquisadora do Cepea. “Isso é um reflexo da mudança na forma de produção agropecuária ou, dependendo do período, se existem oportunidades de emprego em outros setores. De 2012 para cá, predomina o primeiro fator, com o aumento da produtividade na agropecuária, que leva a uma substituição do trabalho por capital.”

Esse processo de modernização tem como efeito indireto a concentração da produção, explica a pesquisadora. “Com a dificuldade em competir, muitos estabelecimentos vão sumindo e a produção vai ficando mais concentrada em estabelecimentos maiores. Isso também contribui para ter menos pessoas envolvidas na agropecuária”, afirma.

O movimento fica evidente quando se olha para a evolução da população ocupada por posição na ocupação. Entre 2012 e 2019, sempre considerando terceiros trimestres, dos 1,8 milhão de trabalhadores que deixaram a agropecuária, 812 mil trabalhavam por conta própria, muitos deles, provavelmente, como pequenos produtores. Cerca de 780 mil eram trabalhadores familiares auxiliares – pessoas que ajudam parentes, sem remuneração, cuja participação tem diminuído também devido à dificuldade de sucessão no campo. Outros 198 mil dos demitidos eram funcionários com carteira.

Embora a redução da mão de obra no agro seja um fenômeno estrutural, a crise recente também deixou marcas no setor. A informalidade, que vinha em queda até 2014, voltou a crescer desde então, com os trabalhadores do setor privado sem carteira passando de 18% do total do setor agropecuário no terceiro trimestre daquele ano para 23% em igual período de 2019.

Mesmo com o menor número de pessoas trabalhando na produção agrícola e o aumento recente da informalidade, o rendimento médio do setor cresceu acima daquele da população em geral. Entre 2012 e 2019, a renda média das pessoas ocupadas na agropecuária passou de R$ 1.203 a R$ 1.301, aumento de R$ 98 ou 8,1%. Já a renda média nacional passou de R$ 2.131 a R$ 2.223, crescimento de R$ 92, ou 4,3%.

“A mão de obra que o universo agro mais liberou foi a mais básica, aquela de menor remuneração, cujo trabalho foi substituído pela máquina. A saída dessas pessoas da amostra aumenta a remuneração média”, diz Felippe Serigati, pesquisador do Centro de Agronegócios da Fundação Getúlio Vargas (FGV Agro). “Além disso, aumentou a demanda por mão de obra mais qualificada.”

A consultoria Michael Page, especializada em recrutamento e seleção, percebe essa mudança em seus negócios. O diretor Lucas Toledo conta que cresce a procura, por exemplo, por pilotos de drone para sistemas de mensuração de lavouras, desenvolvedores de software para controle da produtividade, engenheiros de produção e mecânicos, projetistas e designers para máquinas agrícolas, além de profissionais de compras, finanças, contabilidade, recursos humanos e administrativos que dão suporte para os grandes conglomerados agroindustriais.

“Há uma miríade de novas profissões, muitas delas que já existiam em outras indústrias e que, com a profissionalização do agro, estão sendo trazidas para o setor”, diz Toledo. Segundo ele, a remuneração de um desenvolvedor de software varia entre R$ 7 mil e R$ 12 mil, já um diretor comercial para agronegócio pode receber de R$ 30 mil a R$ 45 mil.

A mudança na demanda por profissionais no setor já aparece no grau de instrução dos trabalhadores. No terceiro trimestre de 2012, 84,7% dos ocupados na agropecuária não tinham instrução ou tinham apenas o ensino fundamental (completo ou incompleto). Esse percentual caiu a 74,7% no mesmo trimestre de 2019. Já os profissionais com ensino médio passaram de 14,1% para 23% e aqueles com superior completo subiram de 1,2% para 2,7%, ou de 118 mil para 221 mil pessoas.

“Parece pouco, mas são mais de 100 mil pessoas a mais no agro com nível superior, isso reflete tanto o aumento da escolaridade da população brasileira em geral no período, como a agropecuária demandando mão de obra mais especializada”, diz Nicole, do Cepea.

Segundo a pesquisadora, a tendência de redução da população ocupada no agronegócio deve continuar, e pode ganhar ímpeto caso a recuperação cíclica da economia se confirme, com mais oportunidades de emprego no meio urbano. Além disso, cresce também o número de pessoas que residem no campo e atuam fora da agropecuária. Entre 2012 e 2018, a participação de residentes do meio rural atuando em empregos não agrícolas cresceu de 41,5% para 47,5%, mostra estudo do Cepea divulgado em outubro.

Serigati, da FGV Agro, destaca que, apesar da redução da população ocupada nas chamadas atividades “dentro da porteira”, o setor tem gerado mais renda devido aos ganhos de produtividade. “Nas regiões em que o agronegócio é a atividade predominante, observamos uma evolução da taxa de desemprego mais favorável do que nas principais áreas metropolitanas, devido ao aquecimento do setor de serviços nessas regiões”, diz.

Estudo de 2017 realizado por Serigati e coautores sobre o Matopiba (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia) mostrou que, naquela região de fronteira agrícola, a população ocupada no agro diminuiu em média 1,4% ao ano entre 2012 e 2016, enquanto cresceu 3,3% em serviços e 0,7% na indústria.

Créditos: Thais Carrança

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Sindicalize-se
Falar pelo WhatsApp
Enviar via WhatsApp