E quando acabar o auxílio?

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Uma massa de pobres e vulneráveis, depois de experimentar melhora de padrão de vida sem precedentes, não só perderá os recursos que tornaram isso possível como voltará a um mercado de trabalho ainda anêmico, armada apenas com sua baixa produtividade.

Fernando Dantas

24 de setembro de 2020 | 20h32

A pandemia da Covid-19 mexeu profundamente com a economia, a política e as condições sociais da população em todos os países do mundo afetados pela doença. No Brasil, que é o segundo país em termos de mortes pelo coronavírus, e o quinto em termos de mortes por 1 milhão de habitantes (excluindo nações irrelevantes populacionalmente como San Marino e Andorra), não poderia ser diferente.

No início da pandemia, porém, ninguém poderia imaginar como a interação de questões sanitárias, políticas e socioeconômicas se desdobraria, e qual seria o resultado. Agora, com aproximadamente seis meses desde que as primeiras quarentenas foram decretadas, já é possível ter uma boa ideia do que aconteceu. E foi surpreendente em muitos aspectos.

Começando pela política, como o economista Samuel Pessôa escreveu recentemente na sua coluna Ponto de Vista, na revista Conjuntura Econômica, a pandemia mostrou que mesmo o governo de extrema-direita de Jair Bolsonaro não se desviou do que o analista chama de “pacto social da redemocratização”.

Esse pacto, para Pessoa, é a tendência, avalizada pelas urnas, de todos os presidentes desde o início da fase democrática privilegiarem programas sociais para os mais pobres e a tentativa de construir no Brasil um estado de bem estar, ao estilo da Europa setentrional. Não quer dizer que o resultado seja tão bom como o europeu, claro.

Diante da ameaça de devastação social da Covid-19, Bolsonaro, junto com o Congresso, lançou o auxílio emergencial, um programa gigantesco de transferência de renda para informais e pobres, perante o qual o Bolsa-Família, com todo o seu foco e eficiência, parece uma ninharia.

Com a ajuda do auxílio, a massa de rendimentos das famílias brasileiras, que cairia 5,3% em termos reais este ano (sem o auxílio), deve crescer 4,8%, segundo estimativas do economista Daniel Duque, especialista em mercado de trabalho do Ibre-FGV. Outras medidas foram tomadas, mas o auxílio é o grande responsável por esse efeito.

Mas como essa imensa injeção de recursos afetou o trabalho, o consumo, a sensação de bem estar e até as inclinações políticas dos beneficiários? Algumas dessas perguntas são difíceis de responder ainda, mas sobre outras já há uma luz bem razoável.

Como o próprio Duque mostrou em dois trabalhos com metodologias econométricas aplicadas aos microdados da Pnad Covid, surpreendentemente o salário médio por hora trabalhada também subiu na pandemia. E uma das principais causas foi que, não só quem mais saiu do mercado de trabalho foram trabalhadores em setores informais e pouco produtivos, como, também dentro de cada setor, houve uma tendência de os menos produtivos pararem de trabalhar mais do que os mais produtivos.

Assim, de forma muito simplificada e esquemática, pode-se dizer que a pandemia filtrou o mercado de trabalho brasileiro, ficando com a porção mais produtiva – daí o aumento do salário médio.

Hoje, no Relatório Trimestral de Inflação (RTI) de setembro, o Banco Central encaixou mais uma peça no tabuleiro. No boxe “Consumo por quartil de renda durante a pandemia”, o BC mostra como os gastos com cartão de crédito e pagamento por boleto dos 25% mais pobres caíram menos até abril e depois subiram mais rapidamente (ultrapassando, inclusive, o nível inicial), quando comparados aos 25% mais ricos.

Dessa forma, um quadro vai se desenhando, e não é dos mais tranquilizadores.

A pandemia tirou mais fortemente do mercado de trabalho os mais pobres, mais vulneráveis e menos produtivos. Essas pessoas, no entanto, receberam uma injeção de recursos que, em muitos casos, devem tê-las deixado em uma situação de renda e consumo melhor do que em todas as suas vidas.

Como era de se esperar em famílias pobres com grandes carências de consumo de bens essenciais, os recursos foram maciçamente gastos, com muito pouca poupança.

Agora, caminha-se para o fim dos programas emergenciais que, de qualquer forma, são insustentáveis do ponto fiscal caso perenizados.

Um último elemento do quebra-cabeças, o mercado de trabalho, como tratado na coluna de ontem, não mostra sinal de dinamismo na criação de empregos à medida que o relaxamento do isolamento social vai se ampliando, segundo a Pnad Covid-19 de agosto (os empregos formais do Caged de julho são mais animadores).

Duque, ele de novo, num terceiro trabalho, publicado hoje no Blog do Ibre, faz exercícios que indicam que a redução pela metade, a partir de setembro, e posterior fim, no início do ano que vem, do auxílio emergencial devem reverter fortemente as melhoras em termos de pobreza e desigualdade dos últimos meses.

Uma massa de pobres e vulneráveis, portanto, depois de experimentar uma melhora de padrão de vida sem precedentes, e sem trabalhar, não só perderá os recursos que tornaram isso possível como voltará a um mercado de trabalho ainda anêmico, armada apenas com sua baixa produtividade, fruto de injustiças seculares da sociedade brasileira.

O final dessa história sanitária, econômica, social e política pode ser dramático.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast ([email protected])

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 24/9/2020, quinta-feira.

Fonte: Estadão

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