Coronavírus faz estoques de indústrias e varejistas saltarem a níveis recordes

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Segundo estudo da FGV, pandemia acertou em cheio ambos os setores, que podem promover grandes liquidações para fazer circular a mercadoria parada

Márcia De Chiara, O Estado de S. Paulo

08 de maio de 2020 | 10h00

O isolamento social imposto pela pandemia, com fechamento de boa parte das lojas físicas e o e-commerce ainda muito pequeno para preencher esse espaço, provocou um efeito dominó: derrubou as vendas no varejo e fez o estoque encalhado no comércio e na indústria dar um salto. Em abril, a fatia de indústrias e varejistas com volumes excessivos de estoque atingiu 24,9% e 20%respectivamente. São níveis próximos de recordes históricos atingidos em outros períodos de recessão, aponta um estudo do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV).

“Com uma parcela muito elevada de empresas com estoques indesejados fica difícil saber quando as coisas voltarão à normalidade, mesmo que haja flexibilização do isolamento social”, afirma o economista responsável pelo estudo, Rodopho Tobler. O estudo, obtido com exclusividade pelo Estado, consultou 1.900 empresas da indústria e do comércio e desconta as influências típicas de cada mês na comparação dos resultados.

Estoque da Lojas Cem, onde as vendas caíram 80% desde o início da pandemia. Foto: Epitácio Pessoa/Estadão


A freada provocada pela pandemia pegou em cheio os fabricantes e os varejistas de veículoseletrônicos e móveis. Nas fábricas, o encalhe desses produtos se aproximou a níveis atingidos na época da crise do subprime, nos anos 2008 e 2009, mostra a pesquisa. Como esses são itens de alto valor e não estão na lista de artigos de primeira necessidade, o consumidor parou de comprá-los. Esse movimento ganhou força por conta do medo do desemprego e da perda de renda, explica Tobler.

De março para abril, o primeiro mês completo de quarentena, a fatia das montadoras de veículos que informou ter estoques excessivos saltou 1,5% para 41,2%. “O resultado de abril foi praticamente o mesmo alcançado na crise de 2008”, observa o economista. Em dezembro daquele ano, 42,5% dos fabricantes de veículos tinham produtos encalhados.

Na indústria de eletroeletrônicos e informática o quadro foi ainda pior. O resultado de abril superou o atingido na crise do subprime. Em março, 6,2% das fabricantes informaram acumular estoques excessivos. Em abril, essa marca tinha subido para 38,5% e ultrapassado a alcançada em janeiro de 2009, de 24,9%.

“Subiram os estoques na indústria, porque não está havendo escoamento da produção”, afirma José Jorge do Nascimento, presidente da Eletros, que reúne os fabricantes de eletroeletrônicos. Ele não tem dados do tamanho de encalhe nas fábricas do setor. Mas, de acordo com relatos de associados, diz que o volume de produtos nos depósitos das indústrias cresceu.

Logo quando foi decretado o isolamento social em grandes centros consumidores, muitas carretas estavam transportando produtos das fábricas para os centros de distribuição das lojas. “Mas quando chegaram lá não puderam descarregar e tiveram de voltar”, conta Nascimento. O passo seguinte das indústrias foi se ajustar à nova realidade. Deram férias coletivas, usaram banco de horas, entre outras formas de cortar a produção. “Tudo isso deve ter provocado uma queda de 80% das vendas da indústria para o varejo no mês passado.” Segundo ele, grandes redes de varejo pararam ou diminuíram as compras, prorrogaram pagamentos e renegociaram os preços para baixo.

Esse movimento se refletiu no avanço dos estoques no comércio, concentrado nos bens duráveis. No mês passado, estudo da FGV aponta que 30% das varejistas informaram que estavam com volumes excessivos desses produtosquase o dobro do registrado em março (16,5%) e muito próximo do recorde histórico de 31% atingido em outubro de 2015.  A situação mais crítica ocorreu nas lojas de eletroeletrônicos e móveis. Nesse segmento, a fatia de empresas super estocadas mais que dobrou de março para abril, de 12,1% para 27,4%.

Lojas Cem, por exemplo, com 278 lojas, a maioria no Estado de São Paulo, só tem 47 pontos de venda funcionando. As lojas abertas estão espalhadas entre ParanáRio e Minas. Com 45 dias de estoque parado no centro de distribuição, faz mais de um mês que a varejista suspendeu novas compras. “Não temos motivos para comprar, porque não temos para quem vender. Estoque parado é custo”, resume o supervisor geral da rede, José Domingos Alves. Ele ressalta, no entanto, que os compromissos antigos com os cerca de 70 fornecedores continuam sendo pagos em dia e não foram renegociados. “Não faz sentido renegociarmos o que foi acertado lá trás.”

O tombo na rede, que não está no varejo online por opção, foi grande. As vendas caíram 80% desde o início da pandemia. Alves diz que pode ocorrer um volume bom de vendas quando as lojas forem reabertas, mas tem dúvidas se esse movimento irá se sustentar. “Nunca tivemos uma situação de paralisação por muito tempo. Ainda temos o risco do desemprego, tudo é uma incógnita.”

Na concorrente Magazine Luiza, os estoques agora estão normais, informa a assessoria da empresa. No início do período de isolamento, houve algum acúmulo, mas depois o varejo online cresceu e compensou a venda das lojas fechadas. Antes da pandemia, o comércio online respondia por 48% das vendas da varejista.

No entanto, há indicações de que a empresa também se ajustou. Em comunicado, assinado pelo diretor financeiro e de Relações com Investidores do Magazine Luiza, Roberto Bellissimo Rodrigues, divulgado no início do mês passado, a rede informou que faria um “amplo movimento de renegociação de contratos com fornecedores diretos e indiretos, com objetivo de reduzir custos e ampliar prazos de pagamento”.

Magazine Luiza disse que varejo online ajudou a manter os estoques equilibrados. Foto: Leandro Fonseca/Magazine Luiza


Além dos eletroeletrônicos e móveis, o varejo de veículos, motos e peças é outro setor onde o encalhe de produtos é grande. De março para abril, a parcela de empresas com estoques excessivos quase dobrou, de 18% para 33,5%, mostra a pesquisa. A sobra de produtos é reflexo da queda 66% nas vendas no mesmo período. No mês passado, foram comercializados apenas 55,7 mil veículos novos no varejo, segundo a Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave). Foi o pior mês para as concessionárias em mais de 21 anos.

Com os pátios cheios, as duas lojas do Grupo Amazon, revenda da marca Volkswagen, estão fechadas e as vendas são apenas remotas. Marcos Leite, gerente de vendas, conta que o volume de negócios caiu 85% em relação a um mês normal. Sempre a empresa trabalhou com um mês de estoque. Com essa queda nas vendas, o grupo suspendeu as compras no final de março, na expectativa de escoar os produtos que já estão em casa.

“Conseguimos fazer algumas vendas pautadas pelas promoções”, diz Leite. Entre elas, estão a carência de um ano para começar a pagar o financiamento e também a troca com troco. Neste caso, o objetivo, além de vender, é dar um fôlego financeiro para quem perdeu renda. Também houve aumento nos descontos: eles variavam entre 5% e 6% e agora oscilam entre 8% e 9%.

Liquidação

Para desovar os estoques, Tobler, da FGV, acredita que na saída da quarentena, empresas  podem começar a promover grande liquidações, a exemplo de promoções que já começaram em revendas de veículos. Apesar dos prováveis cortes nos preços, o economista pondera que jogam contra a recuperação as incertezas que há na cabeça do consumidor, sobretudo as relacionadas à manutenção do emprego.

“É difícil prever uma retomada rápida das vendas no curto prazo, especialmente de segmentos que acumulam hoje grande encalhe, como veículos, eletrônicos e também na indústria têxtil.”, diz o economista. No setor têxtil, a parcela de fabricantes com volume de produtos acima do normal também foi expressiva, saltou de 11,2% para 47,6%, de março para abril.

Fonte: Estadão

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