Com pandemia, participação das mulheres no mercado de trabalho é a menor em 30 anos

Economistas estimam tombo do PIB abaixo de 5% em 2020 e inflação de quase 3%
ESTUDO APONTA AS 21 PROFISSÕES DO FUTURO PARA OS PRÓXIMOS ANOS; CONFIRA

Texto: Luciana Dyniewicz

03 de outubro de 2020 | 22h00

Em função da sobrecarga nas tarefas domésticas e nos cuidados com crianças e idosos, parcela de mulheres que estão ocupadas ou em busca de um trabalho chegou a 46,3% no segundo trimestre; desde 1991 número não ficava abaixo de 50%

Ao fazer o desemprego disparar em apenas três meses e o Produto Interno Bruto (PIB) afundar, a pandemia da covid-19 exacerbou desigualdades preexistentes no País, expôs fragilidades do capitalismo e criou novos problemas para o atual modelo econômico e social.

Após o coronavírus, jovens podem ter suas carreiras paralisadas dada a dimensão da crise em um momento em que suas trajetórias profissionais precisam de um impulso, enquanto crianças de escolas públicas, muitas sem conseguir assistir as aulas virtuais, veem seu futuro ameaçado. Já a mortalidade de idosos pode deixar outra marca na sociedade: milhares de famílias sem sua principal fonte de renda, a aposentadoria dos pais ou dos avós.

Em meio à quarentena, transformações ganham velocidade, como a digitalização das empresas, que, apesar de garantir ao mundo corporativo uma maior produtividade e competitividade, expulsa trabalhadores do mercado de trabalho quando o nível de desemprego já é elevado.

Entre os que conseguem se manter empregados, alguns se mostram essenciais para que a sociedade continue funcionando. Muitos desses profissionais, porém, vivem uma situação precária no trabalho. São entregadores, faxineiras, garis que sobrevivem com um nível de renda baixo e que continuaram se expondo ao vírus no transporte coletivo e no ambiente de trabalho durante a quarentena.

O coronavírus ainda escancarou desigualdades estruturais da sociedade. Os negros estão entre os que mais morrem e as mulheres são as que mais trabalham durante o isolamento social, apesar de serem também pior remuneradas.

Diante desse quadro de deterioração geral, quais são as potenciais soluções para os problemas? A renda mínima ganhou espaço no debate após a experiência do ‘coronavoucher’ em vários países. Apesar da falta de recursos para um programa permanente de distribuição de renda, economistas e governos no mundo todo passaram a admitir que não é possível deixar grande parte da população marginalizada e sem nenhum acesso à renda.

No País, depois de um vai e vem, o governo ainda busca fontes de financiamento para ampliar o Bolsa Família. O forte apelo eleitoral de um projeto como esse deve favorecer sua implementação.

O aumento dos gastos criado para tentar amenizar as perdas decorrentes da pandemia, porém, demandará fontes de financiamento. A Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) sugeriu a necessidade de tributação sobre propriedade e ganhos de capital, a redução de impostos de renda das classes mais baixas e a criação de novas ferramentas para taxar empresas digitais, além da introdução de uma taxa mínima sobre lucros de multinacionais – em um indicativo de que os países ricos admitem a necessidade de um novo contrato social.

A partir de hoje, o Estadão começa a publicar reportagens especiais que debaterão os problemas expostos pelo novo coronavírus e possíveis soluções.

Edna Carolina Esteves Telmo tem 23 anos, é formada em Letras e teve um único emprego na vida até hoje, que durou cinco meses. Ela começou a procurar seu primeiro trabalho pouco antes da recessão de 2015 e 2016, quando ainda estava na faculdade, para ajudar as tias a pagar as contas da casa. Tentou vagas de recepcionista e atendente, mas ninguém a contratou no meio da crise.

Após três anos de procura, no fim de 2018, conseguiu uma vaga em uma empresa de telemarketing, mas cinco meses depois foi demitida. “Estava tendo corte de pessoal e quem tinha avaliação da média para baixo foi mandado embora. Minha nota estava na média.”

Edna: 23 anos e apenas um emprego, que durou cinco meses.TABA BENEDICTO/ESTADÃO

Desde o ano passado, ela voltou a procurar emprego, mas,  com a pandemia do coronavírus, as perspectivas se tornaram ainda piores. “Tenho tentado umas 20 vagas por mês, em qualquer área. Antes chamavam para entrevistas, parece que consideravam currículo sem experiência. Agora, não chamam nem respondem e-mail”, diz ela, que ajudou a pagar as contas da casa nos últimos meses com o auxílio emergencial. As tias, uma professora do ensino público e uma atendente em uma loja de cartuchos para impressora, sustentam a família.

Edna faz parte da geração que mais sofreu os efeitos das últimas crises: jovens cuja renda despencou entre 2015 e 2017, que não tinham conseguido se recuperar ainda desse impacto e que estão, novamente, entre os mais atingidos pela nova recessão.

Levantamento do Centro de Políticas Sociais da Fundação Getúlio Vargas (FGV Social) aponta que  pessoas de 15 a 19 anos foram as que tiveram o maior recuo na renda entre 2015 e 2019, com uma queda de 24%, seguidas por aquelas que tinham entre 20 e 24 anos, cujos rendimentos caíram 11%. Agora, entre o primeiro e o segundo trimestre deste ano, esses grupos perderam 34,2% e 26% da renda, respectivamente.

A queda acentuada do rendimento dos jovens é explicada pelo fato de eles serem os mais atingidos pelo desemprego. No segundo trimestre, enquanto a taxa de desemprego no País chegou a 13,3%, entre a população de 18 a 24 anos, ela alcançou 29,7%.

O desemprego é historicamente mais alto entre os jovens. A questão é que essa distância entre a média do País e a registrada entre eles aumentou na crise de 2015/2016, nunca mais voltou ao patamar anterior e, na pandemia, disparou ainda mais.

Antes de 2015, a diferença da taxa de desemprego entre a população brasileira em geral e os jovens era de 8,3 pontos porcentuais. Em 2017, chegou a 14,2 pontos e, com a recuperação – ainda que lenta – da economia em 2018 e 2019, passou a diminuir. Mas a crise do coronavírus fez essa diferença alcançar 16,4 pontos porcentuais entre abril e junho de 2020. O problema é ainda maior quando se considera o chamado efeito cicatriz, isto é, um efeito de longo prazo na carreira dos jovens que entram no mercado de trabalho em meio a uma recessão (leia mais abaixo).

Além de Edna, sua sobrinha, Bruna Gabrielle Esteves, de 19 anos, faz parte desse grupo de jovens que não têm conseguido se inserir no mercado e que podem sofrer impactos negativos durante toda a vida profissional. Bruna começou a estudar enfermagem no ano passado e tenta uma vaga desde os 17 anos.

‘A concorrência é grande e dão preferência para quem tem experiência’, diz Bruna, de 19 anos.TABA BENEDICTO/ESTADÃO

“Procuro nas redes sociais. Também já  me cadastrei em praticamente todos os sites de emprego. Mas são poucas as vagas e, quando tem, a concorrência é muito grande e dão preferência para quem tem experiência.”

A percepção de Bruna de que as empresas preferem contratar profissionais experientes é justamente o que explica a alta taxa de desemprego entre os mais jovens. Em meio à crise, pessoas com alguma bagagem profissional acabam topando trabalhar por salários inferiores, passando a ocupar vagas que, inicialmente, seriam destinadas aqueles que acabam de concluir os estudos.

O economista Lucas Assis, da consultoria Tendências, lembra que, globalmente, os jovens já têm uma dificuldade maior para se inserir no mercado devido a um problema de “assimetria informacional”, isto é, faltam informações para os empregadores sobre a produtividade de quem está no início da vida laboral.

“No Brasil, isso é mais grave por causa da baixa escolaridade. Jovens tendem a ter menos anos de estudo e concorrem com pessoas desempregadas de maior qualificação”, diz Assis.

NORDESTE E CLASSES MAIS BAIXAS TÊM ÍNDICES MAIORES DE DESEMPREGO

O cenário é mais desolador para os jovens nordestinos e das classes mais pobres. A taxa de desemprego entre a população de 18 a 24 anos no Nordeste ficou em 34,5% no segundo trimestre. Nas classes D e E, chegou a 41,3%.

De Santo Antônio de Jesus (a 110 km de Salvador), Vanessa dos Santos Souza, de 23 anos, encontrou tanta dificuldade para conseguir emprego em sua cidade que a deixou no começo deste ano. Na Bahia, havia conseguido trabalho apenas duas vezes, quatro anos atrás, para distribuir panfletos. Vinha sobrevivendo com a ajuda da mãe e fazendo tranças esporadicamente no cabelo de conhecidas, pelas quais cobrava até R$ 100.

Vanessa chegou em São Paulo em fevereiro, um mês antes da pandemia se instalar no País. Veio com o marido, de 21 anos, que tem alguma experiência como auxiliar de pedreiro. “O tio dele é pedreiro e o levava para as obras de vez em quando.”

Na capital paulista, o casal tem distribuído currículo e buscado vagas pela internet. “Eu procuro trabalho em qualquer área porque quero aprender para, amanhã ou depois, conseguir algo melhor”, diz ela. Por enquanto, só o marido conseguiu duas entrevistas para trabalhar em fábrica, mas ainda não recebeu nenhuma resposta. Nos últimos meses, eles têm usado o auxílio emergencial para pagar as contas, que aumentaram, dado que na Bahia tinham casa e, em São Paulo, precisaram alugar um imóvel.

“Não pretendo voltar para a Bahia. Lá é difícil de arrumar emprego. Ninguém te dá oportunidade. Ninguém chama para entrevista. Aqui, meu marido já foi em duas e agora está esperando retornarem.”

Além de a situação atual já ser bastante ruim, o futuro para o casal não é nada promissor. Estimativas da consultoria Tendências apontam para um crescimento fraco do Produto Interno Bruto (PIB) na próxima década, com uma média de 2,4% ao ano até 2029. O mercado de trabalho deverá responder de modo bastante gradual a isso, com a taxa de desemprego em dois dígitos pelo menos até 2029, quando deverá alcançar 10,3% – hoje está em 13,8%.

“O desemprego vai ficar mais alto no ano que vem, prevemos 15,7%, com pessoas que hoje estão fora do mercado começando a procurar ocupação. Para o mercado de trabalho dos jovens, não vislumbramos um cenário otimista”, diz Assis.

EFEITO CICATRIZ: DESEMPREGO EM INÍCIO DE CARREIRA PODE TER IMPACTO DURANTE TODA VIDA PROFISSIONAL

Se o cenário previsto pela Tendências se concretizar, os jovens brasileiros terão enfrentado, até o fim da próxima década, 15 anos de crise laboral, o que poderá marcar toda a trajetória profissional deles. Estudos apontam que as condições iniciais do mercado de trabalho podem interferir no salário e no emprego dos jovens durante toda sua vida. Assim, quanto maior o desemprego no começo da carreira, menor o rendimento futuro.

“O jovem, quando sai da escola, precisa experimentar várias ocupações para saber qual combina melhor com suas habilidades. Se entra no mercado de trabalho numa recessão, ele não tem essa possibilidade de experimentar ou fica desmotivado, perdendo conhecimento”, diz o economista Naercio Menezes Filho, professor do Insper.

Segundo Menezes Filho, jovem tem de experimentar várias ocupações até encontrar a melhor para seu perfil.ARQUIVO PESSOAL

O economista afirma ainda que estudos feitos na Inglaterra mostram que recessões no início da carreira profissional também aumentam a probabilidade de os jovens entrarem para o crime, além de reduzirem a produtividade do país. “Ou ele pode começar no crime ou ir trabalhar como entregador de aplicativo, que é o que tem hoje. Ele não vai alcançar a produtividade que teria nem a satisfação pessoal. Vai se acomodar em um nível mais baixo, com salário inferior. O país todo perde.”

O economista Marcelo Neri, diretor do FGV Social, lembra que a crise dos anos 1980 no Brasil foi um dos fatores que levaram a taxa de criminalidade no País a patamares mais altos nos 15 anos seguintes. Segundo ele, o “efeito diploma” também pode perder sua eficácia. “Logo que alguém consegue um título, o ganho de renda costuma ser maior. Se se perde essa janela de oportunidade por causa da pandemia, é possível que não haja uma recuperação depois.”

Facilidade com tecnologia pode ajudar jovens, lembra Neri.RAFAEL ARBEX/ESTADÃO – 6/11/2014

Apesar do quadro desanimador para o jovem, há um fator da pandemia que pode ajudar essa faixa da população. A quarentena imposta pelo coronavírus tem acelerado a transformação digital das empresas e os jovens têm mais facilidade para lidar com essa nova economia. “Mesmo tendo sido mais afetados pela crise, eles dispõe de instrumentos para tentar se inserir dentro das novas tendências”, acrescenta Neri.

Fonte: Estadão

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Sindicalize-se
Falar pelo WhatsApp
Enviar via WhatsApp