As oportunidades na Educação em tempos de pandemia

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Daniel José*

06 de maio de 2020 | 08h15

Daniel José. FOTO: CAROL JACOB/ALESP


Em meio à pandemia provocada pela covid-19 e as turbulências políticas cotidianas no governo, dedicamos cada vez menos atenção para um tema que deveria ser prioridade nacional: a educação. Com o distanciamento social, todas as instituições de ensino tiveram que se adaptar rapidamente ao novo cenário, oferecendo a continuidade das aulas de forma remota. Será que há oportunidades para a educação em meio à crise?

Antes de discutir a fundo esta última questão, vale lembrar o contexto atual da educação no Brasil. O país investe praticamente o triplo no aluno do ensino superior do que no do ensino básico ou fundamental, na contramão dos países desenvolvidos da OCDE. Além disso, o Brasil não demonstra evolução no PISA, exame internacional de desempenho educacional. Estamos nas últimas posições em matemática e leitura e a melhora é muito tímida em ciências.

Nosso alto investimento em educação (6% do PIB) não está nem perto de se transformar em melhorias perceptíveis para professores e alunos. O bom administrador deveria sempre, em obediência ao que assegura a Constituição Federal, preocupar-se em obter os melhores resultados possíveis para cada real aplicado. Uma boa política pública deve ser feita tendo o pilar da eficiência como condutor das ações planejadas. Não faz sentido aumentar consistentemente o investimento educacional – como tem se observado no Brasil nos últimos anos – sem percebermos melhorias significativas nos indicadores de aprendizagem.

Com a covid-19 estamos de frente a um desafio ainda maior. Como conciliar esses problemas apontados em um ambiente completamente diferente? As primeiras notícias não foram muito animadoras: impressionantes 60% das Universidades Federais não aderiram ao ensino a distância. Aqui no estado de São Paulo, as principais universidades públicas têm mantido o calendário, embora alunos tenham relatado dificuldades e problemas diversos no método remoto de ensino.

No ensino básico as dificuldades são de escalas exponencialmente maiores. A rede estadual paulista possui dimensões muito maiores e necessidades muito menos homogêneas que as universidades. Como estruturar um sistema que possa atender 3,5 milhões de alunos (muitos deles sem acesso à internet)? Como educar, de maneira remota, alunos mais novos? Como treinar duzentos mil professores que, em sua maioria, não estão habituados ao uso de tecnologia nem possuem preparo para tal? Tivemos que trocar a roda com o carro andando.

Os bons formuladores de políticas públicas, assim como os bons empreendedores, certamente enxergarão este pesadelo como uma oportunidade única para buscar patamares ainda maiores de resultados educacionais. A adaptação das redes educacionais para a realidade de distanciamento social pode fazer surgir ferramentas e mecanismos que resolvam problemas históricos da baixa qualidade de educação a um custo infinitamente inferior ao que normalmente observamos quando um novo programa de governo é anunciado.

Pode-se trabalhar ativamente na redução do gap causado pelo absenteísmo de professores estimado em 30% em São Paulo. A cada 10 aulas do calendário escolar, em média 3 não são realizadas por ausência do professor. Assim, a existência de uma plataforma com a grade de aula gravada que pode substituir aquela aula não realizada. Atualmente, quando o professor se ausenta, os diretores permitem aos alunos ficarem livres no pátio sem um direcionamento claro. Será que faz sentido?

Outra medida seria pensar em uma ferramenta de valorização dos professores com resultados excepcionais. Se perguntarmos hoje: quem são os 100 melhores professores do estado de São Paulo? Simplesmente não sabemos a resposta. Mas eles existem e estão por aí, sem o merecido reconhecimento. Poderíamos valorizá-los fazendo-os gravar suas melhores aulas e disponibilizando em uma plataforma que consolide todo o currículo. Com um currículo completo gravado por diversos professores, os alunos poderiam escolher seus professores avaliar as aulas assistidas.

A redução de desigualdade educacional passa pelo fato evidenciado de que bons professores fazem a diferença. Um estudo da Universidade do Tennessee, EUA, mostrou que o fator ‘bom professor’ é mais impactante para o desempenho do aluno do que outros fatores como número de alunos em sala, grade curricular, envolvimento da comunidade, entre outros. Outro estudo de universidade americana mostra que em um único ano os professores tidos como os 10% melhores impactam três vezes mais a aprendizagem dos alunos que os 10% piores. A criação de plataformas de aulas online pode democratizar o acesso aos melhores professores reduzindo de forma estrutural a desigualdade educacional.

Para saber se estamos na direção correta, precisamos avaliar melhor e com maior recorrência a aprendizagem dos alunos. Um excelente exemplo é o das Kipp Schools nos Estados Unidos, onde antes mesmo de entrarem na sala de aula, os alunos acessam o conteúdo da grade curricular em uma plataforma online, em que cada aula tem conteúdo escrito, vídeo e por fim um quiz atestando se o aluno assimilou o conteúdo proposto. A ideia é tornar o aluno mais competitivo para o processo de aplicação para as universidades.

Todas as ideias apresentadas acima, se executadas, representariam apenas uma fração do orçamento da educação. Assim como toda nova startup, a primeira solução lançada para se resolver um problema vem sempre na forma de um ‘produto minimamente viável’ que será aprimorado constantemente. Recentemente a Secretaria de Educação do estado de São Paulo, sob a liderança do Secretário de Educação Rossieli Soares, criou o Centro de Mídias, com o objetivo de disponibilizar aulas gravadas para os alunos da rede estadual. O aplicativo é acessível mesmo para os alunos que não possuem internet no celular.

É compreensível que iniciativas como a do Centro de Mídias ainda apresentem problemas de ordem técnica, fruto da escala do desafio e da urgência que a covid-19 impôs ao país. Dito isso, iniciativas como a de São Paulo representam uma oportunidade para darmos saltos cada vez maiores em busca do objetivo de formar crianças e jovens preparados para o futuro. Só iremos nos desenvolver enquanto país quando aumentarmos significativamente a nossa produtividade, que encontra-se estagnada há décadas. A elevação da produtividade, por sua vez, passa por uma melhora consistente do nível educacional dos nossos jovens.

Dessa forma, apesar da crise colocar a educação pública em um cenário aterrador, pode servir de oportunidade para no médio prazo estarmos ainda melhores. Afinal, o poder da inovação sempre pode ultrapassar as dificuldades estruturais, ainda mais em momentos como os de agora.

*Daniel José, deputado estadual pelo Partido Novo e membro do Conselho Consultivo da USP

Fonte; Estadão

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