A pandemia expõe as desigualdades

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Quanto mais a epidemia avança, mais as disparidades vêm à tona

Notas e Informações, O Estado de S.Paulo

11 de maio de 2020 | 03h00

Apesar dos sentimentos generalizados de interdependência e das mensagens inspiracionais do tipo “estamos todos juntos”, a verdade é que o atual choque sanitário e econômico será muito mais devastador para os cidadãos mais pobres de cada nação e para as nações mais pobres da comunidade global. A crise pode comprometer décadas de esforços dos países em desenvolvimento para tirar as pessoas da miséria e deve intensificar a tendência à desigualdade nos países desenvolvidos, que vinha crescendo desde a crise financeira de 2008. Quanto mais a pandemia avança, mais as disparidades vêm à tona.

Dados do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) mostram que, apesar dos avanços na redução da pobreza, 1 em 4 pessoas vive na pobreza, e mais de 40% da população mundial não tem qualquer proteção social. Em média, os países mais desenvolvidos têm, para cada 10 mil habitantes, 55 leitos hospitalares, 30 médicos e 81 enfermeiros, enquanto os países menos desenvolvidos têm 7 leitos, 2,5 médicos e 6 enfermeiros. O confinamento provocou uma aceleração brusca da digitalização global, mas mais de 85% da população mundial não tem pleno acesso à rede digital.

A Organização Internacional do Trabalho estima que 195 milhões de empregos serão pulverizados e 1,6 bilhão de trabalhadores informais sofrerão “danos massivos”, com quedas médias de 60% em sua renda. O Banco Mundial advertiu que a pandemia pode lançar entre 40 milhões e 60 milhões de pessoas na extrema pobreza. Segundo o Programa Alimentar Mundial, 135 milhões de pessoas estão sofrendo algum nível de fome e 135 milhões estão à beira da inanição.

Os países ricos estão despendendo proporcionalmente muito mais que os pobres no combate ao vírus e seus efeitos. Pelos cálculos do FMI, enquanto os sete países mais industrializados do mundo gastam cerca de 6% do PIB com estímulos econômicos, os integrantes do G-20 gastam 3,5%. O pacote japonês, por exemplo, chega a 20% do PIB e o americano, a 10%. Já no Brasil ou na Malásia não chega a 3%.

Segundo a Pnud, “sem apoio da comunidade internacional os países em desenvolvimento correm o risco de uma reversão massiva nos ganhos das duas últimas décadas e de toda uma geração perdida, quando não em vidas, em direitos, oportunidades e dignidade”.

O FMI está disponibilizando US$ 1 trilhão em empréstimos – 4 vezes mais do que na crise financeira. Seu pacote de ações inclui US$ 100 bilhões para desembolso rápido; alívio da dívida de US$ 1,4 bilhão aos 29 países mais pobres; um fundo para redução da pobreza de US$ 17 bilhões (até agora foram captados US$ 11,7 bilhões); e a criação de uma linha de liquidez de curto prazo. Além disso, o FMI concertou com o Banco Mundial e o G-20 a suspensão das dívidas bilaterais para os países mais pobres em 2020, totalizando US$ 12 bilhões. São medidas que podem ser emuladas e adaptadas por instituições financeiras globais e nacionais.

Mas uma crise sem precedentes exige respostas sem precedentes. O papa Francisco, por exemplo, afirmou “que este talvez seja o tempo de considerar uma renda mínima universal”. Programas como o Bolsa Família, por mais imperfeitos que sejam, podem servir de modelo a muitos países. Uma dúzia de nações está experimentando algo do gênero. A Espanha caminha para implementar um programa permanente para os mais pobres, e mesmo os EUA estão distribuindo cheques de US$ 1.200 aos mais vulneráveis. “Se os países pobres devem visar uma renda mínima universal além da crise é uma questão em aberto”, disse em editorial o jornal Financial Times. “Implementá-la temporariamente dará informações úteis para fazer a escolha depois. Mas, acima de tudo, os governos devem aos seus cidadãos mais pobres um salva-vidas incondicional já.” A comunidade internacional deveria pensar de maneira análoga em relação aos seus membros mais pobres. A verdade é que, na crise, não estamos “todos juntos”, mas, se indivíduos, organizações e governos seguirem a máxima moral – “aja como se estivéssemos todos juntos” –, talvez saiam dela menos separados.

Fonte: Estadão

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